quarta-feira, 11 de março de 2015

Para Flora, exilada


 Alguém que supostamente conheço
Me reconheceu
Como sendo eu

Fiquei na dúvida
Mas tentei
Não tanto quanto deveria
Perdão mas não sabia
O que é que deu em mim

Foi tudo silencioso
Algumas lágrimas
Sei lá que diabo me deu
Só sei que não sou mais eu

Agora sei o que é desamor
Mentira

Eu sinto,
Este é o ano da despedida
Daquela antiga vida,
E tudo o mais se esvai
Tudo escoa
É irreversível

É como aquela textura de fim de tarde
Não há palavra que cabe
Tanta desilusão

O prazo expirou
Sinto dizer
Que terá que devolver
- me

Meu nome é próprio dessa contradição

E não há filosofia
Nova ou empoeirada
Que dê conta
De quase nada

Que verão cruel
Espero que o outono não fuja

Agora não sei se escolho
Abrir ou fechar o olho
Do próximo amanhecer

Mas sei que alguém tentou nos convencer

de que somos qualquer coisa
Alguém tentou, alguém fingiu
Mas nada nos convenceu
E isso ninguém previu

A mente              ambulante

A mente              latejante

A mente              que mente

Gotas de poesia na calçada
Tão pisoteadas

Tudo em seu limite
Tudo em sua lotação
Tudo em seu estável desespero
Acima de tudo
                Apego

No fundo do abismo tinha uma pedra
Mas ainda bem que não tinha espelho nem juiz
Mas principalmente o nada

No meio do mato
Eu sou exatamente
Aquilo que sou

Os animais não me perguntam o que faço
Às arvores só interessa
que estou viva
sou feliz quando piso na terra
e ela me retribui

sou sentida e reconhecida
sem dizer uma palavra

Posso ate amar e ser amada
e o mais importante:
posso sonhar

não vejo a hora de bater em retirada
não vejo a hora
de só ver o tempo
pela posição do sol

não vejo a hora de ver
além

vou deixar minha mente latejante na estação de trem
desta urbe que me degusta com crueldade
sem requinte

ficar é ser covarde
fugir é ser covarde

Leia
antes que inflame
e me derrame
pelo mundo agora

Leia com a língua
e mastigue
antes da aurora

Eu pedi o amor perene
não coube
pode ser raro

vender  vender  vender
a alma humana
o corpo humano
a mente               o desejo

e roubar
vida       alma      corpo   mente

A todo instante a oportunidade
de  vender         comprar              roubar

existência
                                                sonho                  sensibilidade
                consciência


Nessas cidades impossíveis

Eu vou
(por que não...?)
pra me curar de todo lixo que engoli durante a vida
e que meu espírito não assimilou nem absorveu

Graças aos deuses
sou terra e fogo

Não sou zen   [mas gostaria]
sei dos mistérios que desconheço

Não sei quem Cássia era
mas sei que ela se foi

O importante é que ela pôde cantar
como muitas podiam
como Flora pôde 
mas os pequenos machos que fazem peso sobre a terra
a impediram

O canto o riso o sexo
[e o grito]
É tão perturbador pra eles,
Que podem te encarcerar
E te exilar por isso

A queda dessa América é tão vertiginosa
E quando a nova América nascerá?

Eu gosto de ver a estrada
Mas não de percorrê-la
Sabê-la à minha espera me nutre
Vou desaguando o que vivi
Nesta breve jornada lírica

        [e em você, o oásis
 que esse caos me permitiu]

Quero cantar pela flora exilada
E fazer tremer de raiva
Os pequenos machos que fazem sangue pela terra
Que procriam por estupidez e insolência   
Esses pequenos parasitas-sanguessugas que tendo nascido sem brilho                algum

Querem calar a nossa voz