sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

De fevereiro


Foi-se
                Mas ficou

Riu-se
                Mas chorou

De fora pra dentro

Meu deserto é fundo
Desentendo-me

Ah se aqui tivesse
A tua amizade dourada
Ou qualquer outra que me soubesse ler
Que me soubesse ser
                     sem segredo


São milhares de habitantes


É dia de ter euforia
É hora de perder o tempo
Deixar-se no limiar

Hoje é tudo experimento,  momento
De não ter sentido
De ser o que não se é
Ou o que sempre foi
Enfim

Esta reservado o presente
Tenho até o aval dos meus inimigos
Para ser feliz

[se eu soubesse sê-lo
 Se alguém soubesse...]

Está permitido
É necessário

Mas minha briga é nos outros 360 dias do ano
Em que sou
O contrário

As senhas
Filas
Rótulos
Roteiros

E nenhuma multidão me segue
À alma não se define
O dia de ser alegre


Só morrendo dia a dia
Pra sobreviver

Só engolindo agonia
Pra desencantar
          Apodrecer

Isso aqui não é calma
É desajuste crônico
Daqueles que evapora
E cai em forma de tempo

Toda a trouxa do passado
Fede no meu armário

Posso não viver em mim
         Por hoje?
Nem amanhã talvez

Que cálculo errado do destino
Acontece

Que vale sonhar com o além-mundo
Que nunca existirá
Besta sou eu
E não tu


Por que ouro não me reluz?



Dá pra não estar                       sempre


                Em profundidade?

Esquecer a mentira e a verdade

Se fosse eu me pedia

                Pra fechar pra balanço

Por mais um dia

Mas tormento vira beleza
... Alquimia da arte

Do lado de cá é sobrevivência
Do outro
Sabe-se lá

Pode ser tendência,
Pode ser passatempo
Pode ser estar vivo

Pode ser sonhar


domingo, 1 de fevereiro de 2015


Era noite ensolarada
   
                densa de gente em qualquer lugar

e eu me cercava no sossego
daquele vasto corpo negro
azul perdido
maltratado

nossos pés ainda nágua
daquela vasta madrugada
daquele oculto verdemar
e eu queria pra sempre 
me adentrar naquele dia

Me perder de vez naquela maré
macia
de paz,
onde toda agonia se dissipa
num instante

mas não fui

Fiquei neste corpo
 é tudo o que eu tenho




Do avesso


Agora eu vou decolar dessa vida bruta

Aquilo que foi antes 
hoje não me serviria
Aquilo que é agora
Tampouco me satisfaz

Eu quero só o meu canto e uma bananeira querida robusta de sombra

eu quero rabiscar os livros mais vendidos
e comer a sobremesa antes do jantar

Tudo bem

A música também tem compasso
Quando a vida é contraponto

Não sou Romeu nem Julieta
Mas carrego no meu peito
Uma puta tragédia brasileira

Todo respeito áquele que ainda se ama
Áquele que ainda se engana,
Devo confessar:
Muito prazer

E quem vai impedir o gato 
de pular de galho em galho
Quem vai dizer se é certo
Enfrentar de peito aberto
O que virá?

Diz pra mim se existe saída
Se ainda há força no mundo!

Agora eu vou me embrenhar nessa vida curta
Vou dar uma de maluca
Vou rir de qualquer maneira

Ou prefiro ser careta
Como o boi da cara preta
Fundando o meu próprio senso
Do que é
OUSAR

Enquanto você repara
Naquilo que eu pareço
Dá licença

Vou ali me jogar

No abraço

          Do mar



Por que é sempre rojão
Por que é sempre ferro e chumbo
                Entulhado no peito
Por que é sempre não?

Os pássaros andam calados
Ou anda surda a minha visão?

E o grito
                E o apelo
Que ando derramando
Estão na lista de espera?

Está a vida na lista de espera
Será a senha inválida
Será inválida
A minha natureza

Como ninguém vê
                as luas nem o cheiro de terra
Será que o sol se opõe?

Um dia verei meus sertões?
Um dia verei as veredas?

                Os vales






                                               Os abismos




Ou serei sempre um eco
Inaudível na multidão?
Mas imprestável ao sistema
Sem consenso
Consistente

Será a utopia meu único teto
E o sonho o meu feijão?

Só nos filmes americanos
Alguém arranjou um emprego
(e foi feliz com ele)

Só nos filmes americanos
Tem aquelas casas com jardim

Só nos filmes americanos
Que eu odeio

Tem carne nova na prateleira
Tem marca nova de ser humano
Custa um real
Custa um milhão

Tem refrão novo
Tem refrão velho
Tem novidade que já chega podre
Às minhas narinas

E além do mais tudo isso já deu
Já deu fome,
Já deu saudade
Mas já passou
Já deu vontade
Do avesso

Mas sabe-se lá
Se meu grito vai soar profundo
Se esse verso maldito vai durar

Mas chega menos perto
Pra eu poder te enxergar
Como eu

Agora eu vou encarar essa vida
Bruta ou não