terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O mar nasceu
Mas não morre
Em suas correntes
Infinitas
Imanentes
A essência
Da morte
Entrevida
Daquele que veio renascer
Quiçá

pra ir mais fundo



terça-feira, 24 de novembro de 2015


  Canção de aniversário

Toda verdade cresce
Quando nos faz sentido
De corpo e alma
Todo sentido floresce
Quando é ação
A água estagnada só evapora
Pra ir dançar no firmamento
Cada tempo em sua velocidade
Não repousa
Mas é lento
Nem ao riso
Nem ao lamento
Podemos chamar movimento:
Movimento é impulso com direção
Onde há terra há semente
Se não há saída
Há entrada
Pra subverter
É preciso olhar
O eixo é sempre o mesmo
O que muda é o alvo
Escuta:
O canto do vento
Caminha
E grita a canção
Os versos
Florescerão       


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O sobrepeso
Espesso
Sobretudo
Do que é mudo
Do que é nada:
Nem sacada
nem vento
só estrada
o horizonte ?
se perdeu
esquecido
carcomido
de maresia
ao longe
virou lenda
o antigo cartão postal
o cotidiano é estreito
rarefeito o canto
cada segundo
a pesar
cada movimento
sem cessar
mecanicida
circunscrevendo
o sonho
burocracizando
o infinito
mas os rios desviam seu olhar
para o céu
e algum sentido
sempre toma forma
apesar
do pesar
há intuição
há intuito
e as ervas milagrosas
crescem


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Ancestralidade

Teu
Sangue
Meu
Escorrendo nesse labirinto
E ainda a vida
Grita
Da janela do absurdo
Do mais completo obscuro
Construído pela inércia
E o sentido da estrada
Se faz
Na lapidação
de cada peito
vasto ou estreito
de dor ou prazer
nos interessa
o ser
nos interessa
viver
para ver
a liberdade
nem cansaço
nem desdém
nem bombas
nos contém
já jorramos
fora das represas
somos filhas dos dias
e as filhas das filhas
das filhas
nos embalarão
em novas canções
tiradas das mais belas tradições
somos infinitas
aceitem




Encarnei na melanina
Na pele preta fina
Lâmina
Feminina
Corte doce e reto
Do dia enclausurado
No mesmo eterno caos
Assistido pelos céus
Movido pelas almas
Vivido pelas gentes
Que range os dentes
Por dentro e por fora

Faz acontecer
A hora
Amanhã é raro
Melhor nem pensar
Ri, chora
e derrama
A beleza
Da nossa origem forte
Não devemos nossa vida
Ao azar ou sorte
Melanina n´alma
Do caminho
Aflora
Noite adentro
As cores

e os espinhos


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Senha de si

Que tal libertar a palavra
da forma ingrata
Que tal libertar a forma
de suas represas
As vidas acesas
no núcleo oculto
profundo do tempo
O encontro venal da verdade
com seu intento
reatando o elo
da inteligência
concreta,
aberta ao transtorno
desatando os fluxos
da alteridade
infinita e plena
liberdade
Grande jornada
sem partida
ou chegada

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Aos céticos


Foi somente um sonho
Apenas
um sonho
mas floresce
tudo vivo
dentro do peito
[não se esquece]
tudo sinto
causa e efeito
freio e impulso
morte e vazão
de vida
nada direito
tudo estreito
ou indefinido
sem substantivo
mas quase
que nada
nos tira a paixão
na guerra e na paz:
 justa direção
acordo a existência
me banho em utopia
 caminho na certeza
abraço a consciência
estendo as mãos com gozo
áquele que me integra
se somos vãos
imaginem o mundo
sem essas mãos


quarta-feira, 2 de setembro de 2015


São múltiplas as éticas
E as certezas
Mas são certas as injustiças
E suas saídas
São ínfimas as palavras
Nascidas das singularidades                  no infinito
Mas quando saltam
Ao abismo
Do coletivo
Ecoam       

           

Espelho


 Quem é essa mulher
que me olha
E grita
Quem é essa mulher
Aflita
Com pele escura e salgada
Cabelos crespos
Ou lisos
Os olhos no amanhecer
E os pés na madrugada

Palavras de um futuro
Envolto em mil passados
Liberdade,
Ainda ardia
E dançamos sobre as brasas
E comemos agonia
Arrotando asas 


Dos rios


 Saudade dos irmãos
Saudade dos amigos
Quanta saudade grafada nessas ladeiras
Lavadas de sangue
De vidas interrompidas
Desmerecidas em sua origem
Corpos matáveis
Sem muitas satisfações
Vozes que ecoam
Pelos ares da cidade
As brisas do tempo espalham as cinzas
Que renascem faíscas
E os incêndios milenares
Brotam dos rios
De janeiro
A janeiro






Não vejo vazio
         No vazio
Vejo espaço

         Para o ato






Praqueles que no fundo tremem
diante das utopias
Revestidos de suas boas teorias

Hei de me dizer sim
Aos modelos
Não
E aos anti-modelos

Talvez



terça-feira, 21 de julho de 2015

Rimas vitais (para os filhos dos dias)


Estradas e barreiras
Dos dias
Entradas e bandeiras
Da alma
Sem as respostas cabíveis
Nas represas da fala
Sem os futuros
Possíveis de outrora
Mas sempre as belezas
Presentes no agora
De encanto...

No entanto
Os gritos seguem fundamentais

Rimar ou não rimar
Parece opção
Mas é como a vida

- Não


sábado, 11 de julho de 2015

Uns lutam contra o deserto
Outros na multidão
Todo poema é um fôlego
De um rio interrompido
Pela desilusão
Um encontro
Da palavra que não quer engessar estantes
Que derrama explosiva
A vida antes obstruída
Pelos poros do mundo
- e o agora se realiza

A densidade do tempo se dilui
Alguma verdade se abre
Quem quiser ver
Verá
O desencanto se imortaliza
Reencantado
E quem sabe ecoa como melodia
Além-mar

Mas que tarefa ingrata
Dar forma de palavra
Ao que nem mesmo tem razão
Dar volume, cor e cheiro
Ao que nos toma por inteiro
E não finda

Uma parte de tudo é escolha
A outra é condição
Não são os discursos
que prometem paraísos
 que nos salvam
E sim aqueles breves momentos
em que somos verdadeiros
Despidos das engenharias do mundo
No abandono absoluto
No vazio
No fundo do fundo

Na superfície é fácil legitimar a beleza
Difícil é enxergá-la
Não se sabe como dançam as veias da vida
Não se sabe que ritmo trazem
Para percorrer os dias
As mãos e os pés tateiam
As linguagens ocultas da terra
E pelo andar do desencontro
Ainda somos iniciantes


domingo, 14 de junho de 2015


Atenção: Curto-circuito
Veias e feridas semi-desertas

As placas diziam 
"é proibido:
Ir
Vir
Ser
Sonhar"
Então não soube por onde começar

Ninguém é como todo mundo
Todo mundo não existe
Os outros são sempre inquilinos de um eu estranho


Outra pele é outra pele
Outra cidade são outras
Cores, cheiros e sons
Entre o (des) positivo
Que abre o (des) conhecido
Será o deslocamento muito longo
pelo segundo
Será tudo imprevisível
Apenas por cinco minutos?

Seremos receptáculos
E o que restará
Só as possibilidades das possibilidades
Quase sempre armadilhas imagéticas
Propagandas fonéticas
Virtualmente reais

A palavra fora de mim
Cortou pedaço de si
Por trás da beleza o cheiro de mofo
Tomava todo o jardim

Só se aprende o que se quer
Nem todos os livros nem toda experiência
Curam

Tanto fiz que cá estou
Tanto faz se foi demais
Tanto quis que desbotou
Mas
Aquela lua apressada exuberante
Dançava sob o tempo como os teus olhos
De sempre breve despedida

Estou vencida pelos prazos
Deixo escorrer por entre os ralos
O meu ser
Todas as rotas menos tediosas aparentam alternativas
Mas são apenas formas mais sofisticadas de servidão
Formas tortas de não


Deixei –me nos escombros da guerra
Entre o sonho e a realidade
Sem vencedores, vencidos ou sobreviventes
Apenas pedaços de era uma vez

“Da utopia”
O último filósofo dizia:
Se cata pedaços de vida que se pretendem inteiros
- e isso vicia

Vaguei pelas artérias do dia
Cujo sangue azul-dourado
Me manteve viva
Ansiei pelo que pudera
Não ser violência ou espera

Cortando a beleza suprema do outono
As bombas
Cercando a noite úmida
Não terão direito ao amanhã
Homens, mulheres e pequenos
Que nem chegaram e já foram expulsos
Que contornam de anonimato
Os becos dos becos dos becos
E ainda guardam um sorriso machucado
Pralgum dia de verão

Anônimos somos o processo
Seja do meio ou inverso
É aqui tudo o que nos guarda
E se no meio do caminho
O fluxo nos deságua
De qualquer forma
Seremos

Seremos conexão segura
Ponta de lança afiada
Contra a nova     [velha]
Ditadura
Seremos ancestrais
Futuros
Os frutos maduros
do agora

Embora hoje tudo tenha um peso a mais
Zona de aridez poética
Que lateja a cada instante
Havia um brilho ínfimo
Por entre as pedras portuguesas da noite
E o meu corpo arrastado de lúcida alucinação
Sóbria determinação
Pesando sobre o eixo do mundo

Estou sempre como aquela que acaba de chegar
Caminhando a beira-mar de mãos vazias

Quero dar-me ao desfrute do tempo
Porém hoje
Ele almoça e janta meu corpo

Somos todas forasteiras em nossa própria terra natal
Somos todas de alguma forma excluídas
Da consciência de nossa alma

Essa terra é um mito que carregamos nas costas
Todas as terras são mitos
E eu, retirante
Onde quer que esteja
Lançomelançomelançomelanço em direção
Ao sonho
Ao abrigo

Será inatingível
O som de cada indivíduo
A língua de cada existência
Espessa
Que se adensa pela vida
E é ela inteira tradução?


anti-notícia dominical


Domingo
Central do Brasil
Rapaz de cerca de 18 anos dorme no chão do terminal rodoviário
Com uma bíblia embaixo dos braços

Foi a imagem do dia

                Da vida

De hoje e de amanhã

Na próxima esquina rua deserta
Calmamente o homem garimpa o lixo
No silêncio vasto do centro
Dormido de sábado

As festas cessaram
E os trabalhos
Mas o trabalho de sobreviver não cessa
Já a festa de conseguir é rara
Esparsa
Mas necessária

Aonde está o louco
Aonde está o são?
- todos se perguntam

Aonde estão aqueles

Que foram desaparecidos? 



quarta-feira, 11 de março de 2015

Para Flora, exilada


 Alguém que supostamente conheço
Me reconheceu
Como sendo eu

Fiquei na dúvida
Mas tentei
Não tanto quanto deveria
Perdão mas não sabia
O que é que deu em mim

Foi tudo silencioso
Algumas lágrimas
Sei lá que diabo me deu
Só sei que não sou mais eu

Agora sei o que é desamor
Mentira

Eu sinto,
Este é o ano da despedida
Daquela antiga vida,
E tudo o mais se esvai
Tudo escoa
É irreversível

É como aquela textura de fim de tarde
Não há palavra que cabe
Tanta desilusão

O prazo expirou
Sinto dizer
Que terá que devolver
- me

Meu nome é próprio dessa contradição

E não há filosofia
Nova ou empoeirada
Que dê conta
De quase nada

Que verão cruel
Espero que o outono não fuja

Agora não sei se escolho
Abrir ou fechar o olho
Do próximo amanhecer

Mas sei que alguém tentou nos convencer

de que somos qualquer coisa
Alguém tentou, alguém fingiu
Mas nada nos convenceu
E isso ninguém previu

A mente              ambulante

A mente              latejante

A mente              que mente

Gotas de poesia na calçada
Tão pisoteadas

Tudo em seu limite
Tudo em sua lotação
Tudo em seu estável desespero
Acima de tudo
                Apego

No fundo do abismo tinha uma pedra
Mas ainda bem que não tinha espelho nem juiz
Mas principalmente o nada

No meio do mato
Eu sou exatamente
Aquilo que sou

Os animais não me perguntam o que faço
Às arvores só interessa
que estou viva
sou feliz quando piso na terra
e ela me retribui

sou sentida e reconhecida
sem dizer uma palavra

Posso ate amar e ser amada
e o mais importante:
posso sonhar

não vejo a hora de bater em retirada
não vejo a hora
de só ver o tempo
pela posição do sol

não vejo a hora de ver
além

vou deixar minha mente latejante na estação de trem
desta urbe que me degusta com crueldade
sem requinte

ficar é ser covarde
fugir é ser covarde

Leia
antes que inflame
e me derrame
pelo mundo agora

Leia com a língua
e mastigue
antes da aurora

Eu pedi o amor perene
não coube
pode ser raro

vender  vender  vender
a alma humana
o corpo humano
a mente               o desejo

e roubar
vida       alma      corpo   mente

A todo instante a oportunidade
de  vender         comprar              roubar

existência
                                                sonho                  sensibilidade
                consciência


Nessas cidades impossíveis

Eu vou
(por que não...?)
pra me curar de todo lixo que engoli durante a vida
e que meu espírito não assimilou nem absorveu

Graças aos deuses
sou terra e fogo

Não sou zen   [mas gostaria]
sei dos mistérios que desconheço

Não sei quem Cássia era
mas sei que ela se foi

O importante é que ela pôde cantar
como muitas podiam
como Flora pôde 
mas os pequenos machos que fazem peso sobre a terra
a impediram

O canto o riso o sexo
[e o grito]
É tão perturbador pra eles,
Que podem te encarcerar
E te exilar por isso

A queda dessa América é tão vertiginosa
E quando a nova América nascerá?

Eu gosto de ver a estrada
Mas não de percorrê-la
Sabê-la à minha espera me nutre
Vou desaguando o que vivi
Nesta breve jornada lírica

        [e em você, o oásis
 que esse caos me permitiu]

Quero cantar pela flora exilada
E fazer tremer de raiva
Os pequenos machos que fazem sangue pela terra
Que procriam por estupidez e insolência   
Esses pequenos parasitas-sanguessugas que tendo nascido sem brilho                algum

Querem calar a nossa voz


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

De fevereiro


Foi-se
                Mas ficou

Riu-se
                Mas chorou

De fora pra dentro

Meu deserto é fundo
Desentendo-me

Ah se aqui tivesse
A tua amizade dourada
Ou qualquer outra que me soubesse ler
Que me soubesse ser
                     sem segredo


São milhares de habitantes


É dia de ter euforia
É hora de perder o tempo
Deixar-se no limiar

Hoje é tudo experimento,  momento
De não ter sentido
De ser o que não se é
Ou o que sempre foi
Enfim

Esta reservado o presente
Tenho até o aval dos meus inimigos
Para ser feliz

[se eu soubesse sê-lo
 Se alguém soubesse...]

Está permitido
É necessário

Mas minha briga é nos outros 360 dias do ano
Em que sou
O contrário

As senhas
Filas
Rótulos
Roteiros

E nenhuma multidão me segue
À alma não se define
O dia de ser alegre


Só morrendo dia a dia
Pra sobreviver

Só engolindo agonia
Pra desencantar
          Apodrecer

Isso aqui não é calma
É desajuste crônico
Daqueles que evapora
E cai em forma de tempo

Toda a trouxa do passado
Fede no meu armário

Posso não viver em mim
         Por hoje?
Nem amanhã talvez

Que cálculo errado do destino
Acontece

Que vale sonhar com o além-mundo
Que nunca existirá
Besta sou eu
E não tu


Por que ouro não me reluz?



Dá pra não estar                       sempre


                Em profundidade?

Esquecer a mentira e a verdade

Se fosse eu me pedia

                Pra fechar pra balanço

Por mais um dia

Mas tormento vira beleza
... Alquimia da arte

Do lado de cá é sobrevivência
Do outro
Sabe-se lá

Pode ser tendência,
Pode ser passatempo
Pode ser estar vivo

Pode ser sonhar