quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Variáveis


São as memórias de chumbo
Derretidas pela sobrevivência
São os convites de despedida 
Vidas apostadas aos milhares
Vidas – numerais

Estancando desesperanças,
Os sorrisos alheios
Como corpo atravesso atlânticos
Mas como ser
Clamo pela inexistência
Do apego, por um segundo

E na presença da ausência
Quero ser apenas fogo, grão ou pó
Que paira sobre todos os ares
Mas tem consciência
E sobretudo a decência de ser o que é

Se sou apenas casca pro resto do mundo
Se devo ser apenas casca e só,
Oca, envernizada
Acho que só fui eu no instante em que nasci
E aquele foi o grito verdadeiro
Antes de oferecer – me em postas
Para a antropofogia do mundo

Só esqueceram de me dar
A dose que aceita
E a dose de euforia que celebra o nada
Ou aquela velha auto-medicação
Que uns chamam alegria
Outros chamam ilusão

Mas é nas gotículas de verdade
Que estão em movimento e sempre foram raras
Aonde os sentidos que nos tangenciam me apreendem
E se aqui estamos, continuemos
Pois a poesia é eterna amiga
E brota das frestras mais invisíveis.