terça-feira, 30 de setembro de 2014

Das resistências


Foi – se deslizando
E aprofundando-se de mim,
Enquanto eu mesma fora de tudo
Mas sufocada pelas violências mínimas
E máximas
Fui cercando-me
De dor represada

Cheguei a implorar aquele estado de abstração
De aleatoriedade
De espontaneidade
De não razão
Que explora o presente alegremente
 o caminho enquanto ele mesmo se forma
Que outrora me fazia grande e pequena

Agora ainda
 grande e pequena
pela culpa e impotência
acredito estar tão só
quando na verdade ordinariamente
inadequada
tenho quase tudo
para um - mas nada para todos
e todos ou muitos são eu mesma na verdade
ou pelo menos é esse meu destino
nunca ser um
mas ser justamente o outro,
 e dessa forma incorporar ao mesmo tempo
de forma bem difusa
todas as querelas, todas as disputas
todas  as polêmicas e os desafios
fagocitando uma humanidade maior
que nunca existiu ou existirá
fagocitando a mim mesma ao perceber que
a solidariedade que me impulsiona
consumindo- me quando encaro
minha própria obscuridade.

As limitações de qualquer um
Que ás vezes juntos superamos
Mas quase nunca juntos
Estamos como que nos organizando como loucos num prédio escuro
Tateando objetos, pessoas
trombando com portas e ainda treinando a visão
noturna
mas de alguma forma ações aparentemente desordenadas se coordenam
e enfurecem os generais
e ameaçam os parasitas
que não mais nos engolem livremente
mas nos violentam e violentam
pelo desespero da perda do poder
E renascemos inesperadamente
de lanternas a mão

O poema é um ponto
como eu
um ponto total, e único
infinito em sua constituição,
ilimitado ou insignificante
no fundo egocêntrico
vivo de todas as formas
e possível a partir apenas de outro ponto
imerso em totalidades.

Talvez até a rocha tenha medo
De se decompor
E como aglomerado orgânico
Perder sua força até não mais
Rocha, mas pedrinha
Mesmo integrando o solo mais rico
Sentir-se infértil

Ou nesta sala palavras frias
Nestas teclas absurdas frágeis
 uma súbita salvação
Um canal de energia
Pois a vida se cansa de ser pensada
E foge
A vida se cansa de ser planejada
E morre



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Vinte e um anos intermináveis



Não ergo mais flores nesta década
As bandeiras estão murchas
[mas renascem...]
Quero atravessar o espelho
Ainda que qualquer perigo me espere
Se ele for vivo
Se for desobstruído
De grandes construções
Paradigmas, teses, pressupostos
Classificações superficiais,
[que ferem fundo]
Sistemas
Insistentes
Ou a verdade, ou a alegria
Ou liberdade, ou igualdade
Falsas dicotomias
Mães de verdadeiras angústias
Calçadas estreitas confinando mentes
O estranho movimento das possibilidades

São ocos os espíritos?
São pequenos os intuitos
E são fortuitos...
Os contrasensos

O horror e a beleza lado a lado
Perenes
O ser nos é negado
E os olhos desmontados

São fuzis!
Onde estão os pássaros
Fugitivos apegados a seus parcos arbustos
Legislam as armas como sobrenaturais
Por sobre os corpos e pores - do – sol

O rio de sangue é cinza
em 2014
Ele segue pelas veias frias da cidade
Pelas vias impessoais, 
Pelo mundo- sub-mundo onde nós sempre seremos distantes
Sempre meio estrangeiros

Só sabemos
Que desapareceremos