sexta-feira, 6 de junho de 2014

De Junho a junho


De junho a junho

Além da grade espio a pequena mata resistente
Como a que em mim reside
Latente
Os pássaros e as britadeiras em disputa
São a voz de um mundo rouco
Aqueles rostos que gritam atravessando ruas e a história,
Aqueles rostos lado a lado ao meu
São nossos sonhos
Mesmo enrugados estão firmes
Eu, a menina e a senhora
Damos as mãos e nos chamamos:
Companheiras

O gosto de haver sonhado, e o gosto de haver gritado
São nossos,
Estão impressos
Nas milhares de almas
Minhas, tuas
Almas nuas e corajosas
Neste dia ou nesta noite que derrama outono ensolarado,
Longe do brilho do som dos mares assediando as pedras
Nos fizemos mar e rochas
Em meio ao concreto
E toda a luz da cidade esteve sobre nossos ombros
Cansados, mas resistentes
Corações pretos,
Peles vermelhas

As mentiras se desmancham
Os holofotes, os truques, são todos escrachados
E os filmes de ficção científica
Que podem ser reais
Não serão: 
O filme depende de nós
Sem nossos braços maciços nossas bocas reluzentes nossos sexos vibrantes
Nada, absolutamente nada
Subsiste  

A cada instante todo este circo macabro se esvai sem sentido
As luzes artificiais se apagam
E o sol volta a reinar
O sol...
O primeiro rei absoluto dessa terra
Me espreitando por entre as nuvens de junho
Junhos fecundos e cruéis
Junhos brilhantes
Para mim, eternos.