segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Do tempo intransponível

Dos mares de morro doutro lado
Muito ficou,
Muito se foi;
Dos mares salgados desse lado
Só começo a degustar a princípio
Seu sabor agridoce

Mas daqui e de lá
Vejo Áfricas
Tantas,
e adentrando até
Aqueles espaços hostis
Como outrora

As mães primeiras dessa terra antes, muito antes
Daquelas
Também não se perderam:
E nossa ingratidão é nossa ruína.

Aqui novamente me deparo
Com a lentidão com que tudo
Não acontece:
Parece que tudo em mim
Em nós
Opera em temporalidades geológicas

A despeito do que parece, tudo
É fruto de lutas constantes,
De resistências,
Aliás os resultados
Nunca são realmente resultados
Mas sempre flutuam
No limiar de seus opostos

Acabam sendo esperas e esperas
Ainda que em movimento constante,
Ainda que na aparência frenética das ruas:
Meu corpo exausto que devora os minutos
No fundo evolui lentamente.

A despeito de meus desejos, a despeito até – pasmem
De meus atos, a maturação só vem
Quando é oportuno
A vida não escuta gritos, pirraças, desesperanças
E nem tampouco
Premia só merecidos.

Por isso é que ver-te a cruzar meus dias é sempre melhor
Do que amargar as esperas
Ver-te é o agora possível,
Tangível e completo
E sendo ou não perene,
Já o é.




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cela escura

Atravessei-me até aqui
Para poder ler o mundo
Nos olhos de Ingrid.

Ela teve quinze anos
Nas costas da África
E eu
Muito depois disso
Também.

Nasci livre
Graças a minha mãe,
E não a nenhuma lei

Nenhuma lei jamais foi leal
Ás naturezas humanas,
E entre todas elas impôs-se justamente
A verdadeira barbárie.

Ele tem apenas quinze anos
Não tem nome nem rosto
Mas tem marcas:
Foi condenado a vagar em meio a selva
Dita civilizada

Estamos na mesma cela escura
E o próprio tempo já nos impede
De enxergá-la  

Quinze anos!

E mais quinze, e mais cem
Nesse fosso depravado
Mas retornarei sempre

Nossos velhos fantasmas ainda vagam
Por mais que tenham sido escondidos
Continuam presentes

Trazendo a mesma chama
E em essência

O mesmo sonho.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Corpo ínfimo

Tem dias que o chão caminha
Fora de meus pés
Que estão tão duros
De incerteza
Embora cheios
De convicção

Que a pressa, sem desespero
Engole meu corpo
Ínfimo
Mas persistente

O ar tem sido tóxico pra todo lado
Qualquer fragmento de verdade é ouro

Quero criar os novos matizes
Mas sinto que ainda não
Talvez os meus frutos
O farão?
Só vou cuspindo perdigotos de esperança
Onde um dia pode haver um rio

Que papel tenho eu
Neste circo de horrores?
Não o da flor
Nem do espinho
Nem o cordeiro
Ou o leão

Mas ainda livre,
Asfixiada apenas
Por prisões alheias,
Quase nunca serei euforia
Ou devaneio
Maior do que este.

É o tronco do Jequitibá 
O alimento
E aquilo que me diz com teus olhos
Robustos de seiva a qualquer manhã:
Sei,
Quando escuto seu canto e seu cheiro
Que valeu

Sei que suas cascas fortalecidas pelo tempo
Serão maiores
Maiores que você e eu,
Embora quisesse que fôssemos
Ainda mais

Ou desapareceremos juntos...

Ainda que não seja tão grande
Quanto gostaria
Meu prêmio já é estar presente
E se esses rostos me escorrerem pela mente

O sentimento, não.