sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

descarta (Mário Cavalcanti)


tinha comprado vinho branco
perfume francês
imagino o assento dos bancos
choro de saudade
lixo as unhas pra fica melhor
me lembro dos sonhos
fujo pra velha bahia
esquartejando bifes

vou crescendo sangue contra-fome
uso a borracha do adeus
meu
diagonizo
não não bebo não
aponto o lápis
descrevo o desembarque
e esqueço

(Isso, 2012)

volta em aberto (P. Leminski)


        Ambígua volta
em torno da ambígua ida 
      quantas ambiguidades
se pode cometer na vida ?
        Quem parte leva um jeito 
de quem traz a alma torta.
         Quem bate mais na porta?
Quem parte ou quem torna?


(Distraídos venceremos, 1987)


Poesia hidráulica


Hoje peguei um objeto
Raro
Foi o raio do teu verso
em pleno céu azulejado
que me fez reencontrá-lo

Esfera - gráfica
(quase) abandonada
pelas teclas que automáticas
querem me roubar a identidade
e a conta (mas vou contra)
corrente

De fato é indispensável
esta excreção manual
de tinta expressiva
descarga de vida
moldura de um eu que não se apaga
fôrma onde acomodo sentimentos
na falta de versão mais adequada

dos usos e desusos que se confundem com seus fins,
com seus seres e não seres
diga-me como fazes...
e te direi ainda
que à poesia nada escapa,
e que mais do que fachada,
esta ali o que há em mim.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Asas moduladas



 Hoje acordei e tinhas ido embora,
Caro Joe
De asas moduladas
Sonoras potentes
De sonhos de outrora

Foi daqueles que irrompe
E perene se (en) torna
Foi daqueles que ainda é
e nem tivemos tempo de atravessar a costa naquele velho automóvel

E nem tivemos tempo de querer porque ainda não sei
como vai ser
tudo o que tem sido, você sabe
para nos manter vivos

Mas o seu timbre ao cair da noite
Relembra-me de mim
Ao que vim
E de um poder que ecoa
Pelos peitos, estradas, casas de qualquer ser
Infindo verdadeiro
Invisível mas explícito
 Pedaços de alma de energia que voam de ti
Para além do dentro e fora,
Do hoje e do amanhã
Campo magnético que ninguém tateia
Mas que molda sentidos e existências...


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Variáveis


São as memórias de chumbo
Derretidas pela sobrevivência
São os convites de despedida 
Vidas apostadas aos milhares
Vidas – numerais

Estancando desesperanças,
Os sorrisos alheios
Como corpo atravesso atlânticos
Mas como ser
Clamo pela inexistência
Do apego, por um segundo

E na presença da ausência
Quero ser apenas fogo, grão ou pó
Que paira sobre todos os ares
Mas tem consciência
E sobretudo a decência de ser o que é

Se sou apenas casca pro resto do mundo
Se devo ser apenas casca e só,
Oca, envernizada
Acho que só fui eu no instante em que nasci
E aquele foi o grito verdadeiro
Antes de oferecer – me em postas
Para a antropofogia do mundo

Só esqueceram de me dar
A dose que aceita
E a dose de euforia que celebra o nada
Ou aquela velha auto-medicação
Que uns chamam alegria
Outros chamam ilusão

Mas é nas gotículas de verdade
Que estão em movimento e sempre foram raras
Aonde os sentidos que nos tangenciam me apreendem
E se aqui estamos, continuemos
Pois a poesia é eterna amiga
E brota das frestras mais invisíveis.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Salva (a dor)



Cidade – mar aberto
De corpos como o meu
De chuvas efêmeras refrescantes
De quase paz
De quase utopia
De tudo que poderia
 mas não é
Ou é por um minuto na ótica do viajante
Mas é denso,
E é além
É o início, é a síntese e o tempo
Urbano e não urbano
Hipnose verde-azul salgado
Tudo salgado depois de um tempo
Daonde brota doçura
E se instala maresia no peito
Que só sai destroçada
Pela volta.

E agora já sei o que basta
Já sei porque antes já te amava
De te ouvir
Cidade que sempre foi 
Aonde recomecei e me refleti
Aonde fui salva

 Já o rapaz castanho
Soteropolitano, 
filho de pescador
Teve estudo porque quis
Porque é sonhador
Anda de graça
Agarrado a baía
Coração destroçado
Queria estar casado
Mas agora vai pra França
Ganhar em euro
Vai sofrer,
mas volta
[E só voltando]
Porque o contrário é impossível,
Esquecer o indizível
É impagável ...


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Das resistências


Foi – se deslizando
E aprofundando-se de mim,
Enquanto eu mesma fora de tudo
Mas sufocada pelas violências mínimas
E máximas
Fui cercando-me
De dor represada

Cheguei a implorar aquele estado de abstração
De aleatoriedade
De espontaneidade
De não razão
Que explora o presente alegremente
 o caminho enquanto ele mesmo se forma
Que outrora me fazia grande e pequena

Agora ainda
 grande e pequena
pela culpa e impotência
acredito estar tão só
quando na verdade ordinariamente
inadequada
tenho quase tudo
para um - mas nada para todos
e todos ou muitos são eu mesma na verdade
ou pelo menos é esse meu destino
nunca ser um
mas ser justamente o outro,
 e dessa forma incorporar ao mesmo tempo
de forma bem difusa
todas as querelas, todas as disputas
todas  as polêmicas e os desafios
fagocitando uma humanidade maior
que nunca existiu ou existirá
fagocitando a mim mesma ao perceber que
a solidariedade que me impulsiona
consumindo- me quando encaro
minha própria obscuridade.

As limitações de qualquer um
Que ás vezes juntos superamos
Mas quase nunca juntos
Estamos como que nos organizando como loucos num prédio escuro
Tateando objetos, pessoas
trombando com portas e ainda treinando a visão
noturna
mas de alguma forma ações aparentemente desordenadas se coordenam
e enfurecem os generais
e ameaçam os parasitas
que não mais nos engolem livremente
mas nos violentam e violentam
pelo desespero da perda do poder
E renascemos inesperadamente
de lanternas a mão

O poema é um ponto
como eu
um ponto total, e único
infinito em sua constituição,
ilimitado ou insignificante
no fundo egocêntrico
vivo de todas as formas
e possível a partir apenas de outro ponto
imerso em totalidades.

Talvez até a rocha tenha medo
De se decompor
E como aglomerado orgânico
Perder sua força até não mais
Rocha, mas pedrinha
Mesmo integrando o solo mais rico
Sentir-se infértil

Ou nesta sala palavras frias
Nestas teclas absurdas frágeis
 uma súbita salvação
Um canal de energia
Pois a vida se cansa de ser pensada
E foge
A vida se cansa de ser planejada
E morre



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Vinte e um anos intermináveis



Não ergo mais flores nesta década
As bandeiras estão murchas
[mas renascem...]
Quero atravessar o espelho
Ainda que qualquer perigo me espere
Se ele for vivo
Se for desobstruído
De grandes construções
Paradigmas, teses, pressupostos
Classificações superficiais,
[que ferem fundo]
Sistemas
Insistentes
Ou a verdade, ou a alegria
Ou liberdade, ou igualdade
Falsas dicotomias
Mães de verdadeiras angústias
Calçadas estreitas confinando mentes
O estranho movimento das possibilidades

São ocos os espíritos?
São pequenos os intuitos
E são fortuitos...
Os contrasensos

O horror e a beleza lado a lado
Perenes
O ser nos é negado
E os olhos desmontados

São fuzis!
Onde estão os pássaros
Fugitivos apegados a seus parcos arbustos
Legislam as armas como sobrenaturais
Por sobre os corpos e pores - do – sol

O rio de sangue é cinza
em 2014
Ele segue pelas veias frias da cidade
Pelas vias impessoais, 
Pelo mundo- sub-mundo onde nós sempre seremos distantes
Sempre meio estrangeiros

Só sabemos
Que desapareceremos







sábado, 30 de agosto de 2014

Auto-intitulado



Vivo sem alardes
Mas abrigo sinceridades não invasivas
Ousadias ocultas
que desabrocham nas horas incertas
Os escuros da alma são meus
E os deleites sutis ou não sutis
Mas proveitosos

Tudo que é pequeno e lento,
Tudo que exige coragem
Que nunca retorna
Mas reverbera
Porque a beleza que desperta é aquele brilho interno
Que não se propagandeia,
Mas é essencial

Essa beleza que é invisível
Mas permeia os sentidos menos opacos, rígidos, envenenados
Sobreviventes

O caminho, eu repito,
É solitário
Seja um ou seja outro,
Será este.

As águas lavam-me o sangue
Mas para onde quer que eu nade
Coloco-me a margem

Adentro, mas o poema me exclui
E a poluição me cega

Percorro, persisto
Mas reencontro o nada
Ou espero-me novamente
De braços acesos
 abertos

Todos os grandes erros começam pequenos?
Todos os pequenos-grandes pesos começam serenos?

Nem todos absolutamente
Nem nunca, nem sempre

Todas as medidas são injustas?
Encaixotaram - me todos os dias
Por isso virei chama que destrói e constrói -
Mas sorrateira,
Prefiro ser sentida a ser vista
Por tantos olhos cegos.





quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sem título 1


Como o velho monumento na praça esquecida
A vida me parece nos ter sido roubada
Em pleno meio dia;
Todos os matizes são meus, todos
De todos os seres que nunca existiram, como eu
e vice-versa -

Meu sorriso derrama doses homeopáticas de desespero
A cada vez que imagino velhas possibilidades
Aquelas escolhas descoloridas que não cabem em mim

Quase tudo agora é o avesso do avesso
De algo que não aparece
E quase tudo envolto, revestido
E se importando mais com isso do que qualquer coisa
É bem menos fresco por dentro.

Absolutamente tudo precisa ter uma forma definida?

Posso derreter-me em minha existência,
Posso ser nada e ser bela?

Só me tenho em alta madrugada
Quando surge meu ser onírico;
Meus pés fora do chão que os empurra
São mais leves,
Preciso morrer todos os dias
Para sobreviver
Preciso viver fora do meu corpo
Para senti-lo menos medíocre

Reconheço tuas retinas
E tu me reconhece como dentes, cabelo, coxas
Mas isso é só o começo

Divido com as palavras o preço
De encontrar-me todos os dias;
Mais um eco nos gritos da cidade

O poeta pode dizer tudo a esse mundo surdo!
Mas ainda assim continuará desamparado

No reino das formigas gigantes
Sou um corvo com a asa quebrada
Uma criança de bengalas
Que implora por uma piada

Mas eu lembro que havia um diamante naquele deserto
Ou no meio de milhares e milhares de cacos de vidro
Disfarçados de conchas
O cheiro do mar nos salvava...





sexta-feira, 6 de junho de 2014

De Junho a junho


De junho a junho

Além da grade espio a pequena mata resistente
Como a que em mim reside
Latente
Os pássaros e as britadeiras em disputa
São a voz de um mundo rouco
Aqueles rostos que gritam atravessando ruas e a história,
Aqueles rostos lado a lado ao meu
São nossos sonhos
Mesmo enrugados estão firmes
Eu, a menina e a senhora
Damos as mãos e nos chamamos:
Companheiras

O gosto de haver sonhado, e o gosto de haver gritado
São nossos,
Estão impressos
Nas milhares de almas
Minhas, tuas
Almas nuas e corajosas
Neste dia ou nesta noite que derrama outono ensolarado,
Longe do brilho do som dos mares assediando as pedras
Nos fizemos mar e rochas
Em meio ao concreto
E toda a luz da cidade esteve sobre nossos ombros
Cansados, mas resistentes
Corações pretos,
Peles vermelhas

As mentiras se desmancham
Os holofotes, os truques, são todos escrachados
E os filmes de ficção científica
Que podem ser reais
Não serão: 
O filme depende de nós
Sem nossos braços maciços nossas bocas reluzentes nossos sexos vibrantes
Nada, absolutamente nada
Subsiste  

A cada instante todo este circo macabro se esvai sem sentido
As luzes artificiais se apagam
E o sol volta a reinar
O sol...
O primeiro rei absoluto dessa terra
Me espreitando por entre as nuvens de junho
Junhos fecundos e cruéis
Junhos brilhantes
Para mim, eternos.



quarta-feira, 12 de março de 2014

Soleiras da alma

Minha artista me diz
Que não há amanhã;
Que em tudo vale o encanto
E o contorno da inspiração

Mas noutro canto está indisfarçável
Este eu que nunca voou plenamente
Enquanto carrega o mundo – este eu
Não se contenta com quase nada,
E permanece distante
De euforias passageiras

São aqueles eus de janelas,
De soleiras
De poemas
São aqueles eus de verdade

Que saem tropeçando e engolindo
Os ventos doces ou intragáveis
Num só
Desvelo,
E com gratidão.

Qualquer glória que for minha,
É só boa
E só

Se for nossa sim:
É grande como quero

O que espero me transcende,
Por isso meu anseio é visto como vão
Por isso preciso aprender
Não a esquecer

Mas a celebrar
Nem que seja sonhando
Que foi antecipada
Nossa vitória...

Preciso atravessar estes mundos
Tão meus
América minha,
Por ti voarei

Em tuas alteridades
Tuas altitudes
Friagens e desertos
Para poder parir-te em mim

Neste início de tudo.



sexta-feira, 7 de março de 2014

No nada ( e só)

Preciso de mim
No nada
Sem palavras

Que nada toque
Ninguém me espere

Apenas o som de alguns passos
E de alguma respiração
Lenta,
Sem receios

Preciso só
De mim
Sem perguntas [e afins]
Apenas o som natural do tempo
Suprindo minhas retinas




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Do tempo intransponível

Dos mares de morro doutro lado
Muito ficou,
Muito se foi;
Dos mares salgados desse lado
Só começo a degustar a princípio
Seu sabor agridoce

Mas daqui e de lá
Vejo Áfricas
Tantas,
e adentrando até
Aqueles espaços hostis
Como outrora

As mães primeiras dessa terra antes, muito antes
Daquelas
Também não se perderam:
E nossa ingratidão é nossa ruína.

Aqui novamente me deparo
Com a lentidão com que tudo
Não acontece:
Parece que tudo em mim
Em nós
Opera em temporalidades geológicas

A despeito do que parece, tudo
É fruto de lutas constantes,
De resistências,
Aliás os resultados
Nunca são realmente resultados
Mas sempre flutuam
No limiar de seus opostos

Acabam sendo esperas e esperas
Ainda que em movimento constante,
Ainda que na aparência frenética das ruas:
Meu corpo exausto que devora os minutos
No fundo evolui lentamente.

A despeito de meus desejos, a despeito até – pasmem
De meus atos, a maturação só vem
Quando é oportuno
A vida não escuta gritos, pirraças, desesperanças
E nem tampouco
Premia só merecidos.

Por isso é que ver-te a cruzar meus dias é sempre melhor
Do que amargar as esperas
Ver-te é o agora possível,
Tangível e completo
E sendo ou não perene,
Já o é.




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cela escura

Atravessei-me até aqui
Para poder ler o mundo
Nos olhos de Ingrid.

Ela teve quinze anos
Nas costas da África
E eu
Muito depois disso
Também.

Nasci livre
Graças a minha mãe,
E não a nenhuma lei

Nenhuma lei jamais foi leal
Ás naturezas humanas,
E entre todas elas impôs-se justamente
A verdadeira barbárie.

Ele tem apenas quinze anos
Não tem nome nem rosto
Mas tem marcas:
Foi condenado a vagar em meio a selva
Dita civilizada

Estamos na mesma cela escura
E o próprio tempo já nos impede
De enxergá-la  

Quinze anos!

E mais quinze, e mais cem
Nesse fosso depravado
Mas retornarei sempre

Nossos velhos fantasmas ainda vagam
Por mais que tenham sido escondidos
Continuam presentes

Trazendo a mesma chama
E em essência

O mesmo sonho.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Corpo ínfimo

Tem dias que o chão caminha
Fora de meus pés
Que estão tão duros
De incerteza
Embora cheios
De convicção

Que a pressa, sem desespero
Engole meu corpo
Ínfimo
Mas persistente

O ar tem sido tóxico pra todo lado
Qualquer fragmento de verdade é ouro

Quero criar os novos matizes
Mas sinto que ainda não
Talvez os meus frutos
O farão?
Só vou cuspindo perdigotos de esperança
Onde um dia pode haver um rio

Que papel tenho eu
Neste circo de horrores?
Não o da flor
Nem do espinho
Nem o cordeiro
Ou o leão

Mas ainda livre,
Asfixiada apenas
Por prisões alheias,
Quase nunca serei euforia
Ou devaneio
Maior do que este.

É o tronco do Jequitibá 
O alimento
E aquilo que me diz com teus olhos
Robustos de seiva a qualquer manhã:
Sei,
Quando escuto seu canto e seu cheiro
Que valeu

Sei que suas cascas fortalecidas pelo tempo
Serão maiores
Maiores que você e eu,
Embora quisesse que fôssemos
Ainda mais

Ou desapareceremos juntos...

Ainda que não seja tão grande
Quanto gostaria
Meu prêmio já é estar presente
E se esses rostos me escorrerem pela mente

O sentimento, não.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O impossível é só improvável

Todo ser humano é incansável
Imortal
Perecível
Efêmero
E eternamente
[quase] Só.

Na pele e na alma somente aquilo que é
Do que poderia
Ser
Mas circula e circula nas esferas desse mundo
E sabe-se lá para onde voa...

Quase nada foi impossível em seus sonhos milenares
Quase nada deve ser.