quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Canto Contemporâneo

As flores e os pássaros abarcam o céu
Junto as balas  
As injúrias
As injustiças
Percorrem - me
Esta noite meia-lua
Está cheia pra ti
E estou
Desde sempre.

Desde sempre amo só de imaginar
Tua vastidão de mãe,
Teu ventre eternamente fecundo,
Tua desgraça infinita
Mas não infindável
Desgraça,
Os grãos nascem por todo lado
Mas não vão ás bocas,
Tudo se vende até o canto pálido
Do amanhecer,
Mas não Eu.

Tudo se rouba, tudo se saqueia,
Tudo é vendido por sorrisos sarcásticos
Nada mais tem sentido ou valor diante dos papéis

Aonde estarão os bichos do mato dessa terra,
Daonde pôde brotar tanto ritmo
Que sai do coco de água milagrosa,
Do bambu, da palma
O rio ainda desce maltratado,
Mas melhor que muita gente.

Amo só de pensar em suas grutas milenares aonde me escondi da dor,
Aonde fiz amor com mais de mil pessoas
E acordei amando novamente após dormir três anos,
Em todos os mares vibrantes aonde se pesca
Aonde se mata
A fome de paz e todas as outras.

Sonho antes de partir deitar-me olhando um céu repleto de estrelas no sertão
Ao som sincronizado de insetos camuflados,
Pisar outras areias fofas sentindo as carícias frias da água doce ou salgada
Ou vendo a terra seca e esturricada cheia de cactos,
Ainda gargalhar ao ter dois fartos goles d´água.

Por enquanto me perco nesse labirinto humano de todos os estilos,
Origens
Mas ao fim e ao cabo muito parecidos,
Todos embebidos na grande rede
Muitos totalmente automatizados, sempre impacientes ou irônicos
Outros tantos soltando pipas gigantes a quem quiser segurar
Alguns dispostos a viver, outros, a provar a alguém que estiveram vivos...

Não sinto mais anseio do novo pois é parte de mim em tal forma a liberdade,
Que muito já compreendo do que passou, e do que virá nem desconfio:
O que é perfeito.

Assumir-se só é grande, é imenso e ao mesmo tempo leve
O verdadeiro vazio é leve
Infinito em possibilidades
Só quem pesa esse vazio é o tempo,
Pois este pesa qualquer coisa que insiste
Tudo se [me] cansa
Tudo se entedia, a inércia, a aventura, a loucura e a prudência,
Tudo se curva diante desse rei soberbo.

Quanto a essa paixão que subsiste, não há saudade,
Pois já é parte de mim, é decisão feita, é coisa tão pura
Que antes de ser já aconteceu

[mas qualquer manhã arrefeceu]

Quando vier, aquela explosão, quero que irradie vida e desapego
Ou apego verdadeiro sem angústia
Espero responder bem a essa questão,
Espero testar minha evolução
De toda e qualquer mesquinhez do passado.

Posso me dar essa chance?
Posso derramar ainda nesta terra cansada mais alguma dose
De amor?
Terei de fazê-lo por alguns séculos
Soltem bombas ou não, queiram ou não as pessoas permanecerem
Em sua passividade e em seu medo
De transgredir...

Se elas ainda procurarem sempre as salas de suas casas
Para se abrigarem do mundo hostil
Se ainda acreditarem que é possível a estabilidade,
Que toda cegueira vale essa busca - ou que é mais fácil -
Não desistirei de dizer a elas,
que também amo minha rede e quero desfrutá-la muitas noites,
Que também quero a pequena paz de pertencer a algo sereno e seguro,

Mas apenas por dignidade
[e quero dizer que não por heroísmo ou qualquer invenção parecida]

Eu escolho lutar.