quinta-feira, 25 de julho de 2013

Olhar mutante

Toda hora chega
Todo dia
Meu

Toda hora inteira,
Aberta e bem serena
Mas nunca é tempo
E nunca mais foi simples
Impulso verdadeiro,
Foi tanto crescimento
Em tanto sangue pelo chão
Tanta princesa derramada

E depois
Todo o resto apodrecendo
Lento
Arrastando-se pelo peito adentro

Recusando-se a me devolver

Mais de mil faces me encaravam
No espelho das ruas cada manhã
Tive de ver e ouvir
Mais de um milhão de vezes
Que tudo é muito mais
Muito mais que absurdo

E ainda faço e refaço o sentido
De muita coisa a todo instante
Ainda piso cuidadosamente
Não sou mais cordeiro
Nem serei leão

Apenas desconfio
Afio minhas espadas
As flores pereceram
Só a poesia persiste

Respiro à minha maneira
Insisto em seguir sem consolos,
Sem muletas
E sempre à beira da emoção

Sem escombros pra me recostar
Sendo que até a montanha recosta
No mar
E o dia e a noite naquela

Por vezes recosto-me na lua
Entrego-me ao banho quente
De algum abraço fugaz
E sussurro apenas verdades
Que caem no vácuo constante

Dentro desse olhar mutante
Existe uma essência bem fixa
Como quando o mundo é tão estranho
Quanto pode ser claro,
Quando o preto dilui-se no branco
Revelando-se o mesmo

Estado-imensidão

Não quero testemunhas de fé
Ou de existência
Quero sentidos
Mais expansivos  
Sempre bem vividos,
Limpos
E no frio

Ser meu próprio fogo.

Como nisso tudo não perder-te
Ou como encaixar-te verdadeiramente,

Eis a razão

De todo (re) encontro... 


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Fôlego

Uma estrela explodiu hoje
Não pude contê-la

Varreu o universo
Quando ontem afirmava
Que tudo estava em paz.

Julguei estar vazio, em movimento contínuo
Leve solitário e silencioso
O vácuo celeste de meu peito
Pensei poder prever até a mínima gota
Debruçando-se na fresta da manhã

Ontem era fresco receptáculo
Com gosto livre de menta
Hoje é inflamável
Por ter engolido o sol

Se antes já estava vivo, agora
É latente,
treme
Expandindo-se indefinidamente

Como se a pele do cosmo tivesse de abrir-se
E evaporar
Para revestir o todo
Pela eternidade

Perdeu-se o senso de realidade
Quão vulgar e pequeno ele se torna
E de qualquer forma inútil

Se o delírio pronunciou-se
Quem falará mais alto?
Quem estancará o som
Da tua voz em meu ouvido?

Nascemos para o frêmito
Nada que seja vida
Pode se acomodar
Aceito a transitoriedade permanente!
E como partícula infame
Devo tremer no espaço
Revivendo a todo instante
O repouso e o desespero

Em teu olhar caramelado...


domingo, 14 de julho de 2013

Por amor à urbe

Estreitas alamedas
Becos maltratados
Homens esquecidos
[de si]

Transito incólume pelos lugares sujos,
e evito
A falsidade da beleza
Do que é domesticado

O que é muito limpo me salta às narinas
E sei que há algo de errado,
Há algo de irreal
Nessas esquinas

Algo de ilusório eu diria
Muito mais que teatral
Nas boutiques
Das ruas mais bonitas

E as meninas que nelas transitam
Achando seu dia tão banal
Tampouco me excitam

Mas sem distinção me desloco
E vejo o que quer que seja
Aonde ninguém veria

Me meto nos becos, nas multidões
Nos sons insurdecedores da cidade
Dos quais me alimento
De indignação, de amor,
De raiva e compaixão

E me sinto um robô mais humano

Embora sinta que houve algum engano
E que em enganos nos multiplicamos
Aqui me sinto viva
Seguindo minha odisséia urbana
À procura do lugar que perdi
[ou que jamais tive]


Assim que nasci.


Agridoce

Enquanto as letras vagam por este
Fecundo branco
Fundo,
Não mais as procuro

Este gesto puro me completa,
Ausente a inspiração
Mas não o sentimento

Olhos secos
Olhar tenro
É incrível o que brota
De contraditório da alma,
Incrível embrutecer-se
Entregando-se a emoção

Quero satisfazer-me
Com aquilo que tenho em mãos
Estar verdadeiramente
[no] momento

Sem procurar retê-lo

O que é precioso não me escapa à memória
Mas a efemeridade facilita a superação
De não poder partilhá-lo, seja através do sonho
Ou pela repetição

Saboreio o conforto de não construir laços
O alívio de não trazer esperas
 A leveza da espontaneidade

Aceito, degusto, despeço-me
E sigo mais forte
Sigo agridoce
Sigo perene

Porém, inflamada
Já não sei como ser amada
Mas sei

Flutuar

No movimento da tarde urbana
Submersa em minha paz e comoção
Entre as multidões impassíveis


Repouso acima do chão