quarta-feira, 26 de junho de 2013

O espírito do tempo

Há tempo para a poesia?
- Pensei
Se a poesia se retira,
Que farei?

Posso esquecer o pragmatismo no poema?
Há o pássaro entoando seu canto contínuo
Quando a noite cobre meu corpo
Ainda em ebulição

Além disso há toda uma estratégia
E a palavra mais uma vez
Molda a forma da vida humana
O discurso

O inconformismo é criança
Nascida e ressuscitada
Seu desafio é [sempre] crescer
Mantendo o desejo
Rompendo a desilusão.

Estamos vivos!
Eis a última notícia que surge

O sangue ainda corre em nossas veias domesticadas!

Do grito
Ao projeto
Pois esse mundo
É feito de concreto
E os jornais não dirão a nós
Como refazê-lo

Qual seria a nova matéria-prima do mundo?

De que substância o tecido
Do mundo se costurará

Agora só vejo as grades que interceptam
O pôr do sol na mata restante
Filtrando meu corpo de seu contato
A janela encardida
E o espelho
Que escancara minha existência

Os objetos esperando por arrumação
Os livros esperando pela leitura
E o resto que nada espera
Se impõe por necessidade
Assim termina o meu dia na cidade
Onde quase sempre é verão

Onde os rios são de sangue
Ou de merda
Onde nunca a rua é quieta
Ou deserta
Nem há condução

E cada vez mais na madrugada me lanço ao sono
Como o resto da multidão
A estrela tímida se esconde
Atrás dos urubus
Vencendo a luz elétrica

O espírito do tempo me atormenta
Chronos me aprisionou nesse corpo
De menina
Antes de estar gestado
Sei que o poema estará atrasado
Mas
[como disse o querido Pablo]


Confesso que vivi.


Sobre esses e outros tempos


O homem e seu cão
Neste outono imaturo
Outono inseguro
Mente latejante
A espera
Do desespero breve
No desejo
Na escuta
Tensa e astuta

A dança está suspensa
O chorinho continua
Consolo
De fim de festa
Ou ainda, estou errada
Todo tempo é digno de euforia
Mas não generalizada

A mim chega como gozo
Mas falta algo que além desconfio
Só saberemos dentro de algumas décadas
Será profundo
Será perene
Ou apenas convulsão fugidia
Mas sim sempre há
Consequências a mais
Para aqueles que não dormem
E planejam tudo

Deste lado a poetisa
Nada
Mas muito bem intencionada
Nunca mais escreveu cartas.

Não é previlegiada
É vigiada como qualquer idiota
Que agarrado ao seu conforto nem desconfia
Estar naufragando em patéticas
Águas rasas

Sorrimos para nosso algoz,  o alimentamos
Mas o que há de extraordinário
É que o extraordinário
Sempre vem
E cruzará a esquina dos meus olhos
 Surpresos,
Não porque nasci ontem
Não,
Mas porque é contínuo o renascer

Em tudo, que é contínuo,
Quero incluir-me consciente
E quero devassar o invisível,
De todas as conspirações.

E as simplicidades
Quero continuar a senti-las
 A saboreá-las bem devagar
Apesar de tudo.

Ademais já sei
Como estar em paz,
 Em mim
Mas não com o mundo:
A ele despejo minha melhor energia
de inquietação,
Pois quando tudo é muito calmo
Desconfio, e
Quando treme
Também desconfio [e gosto] mais. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

O que se foi (Ferreira Gullar)


O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?


(Em alguma parte alguma, 2010)

Confronto

Abriguei-me da vida sob aquele teto
Abalado.
Cultivei-me
Confrontei-me
Aprendi a amar, e
Aprendi a ser só

[a maior vitória]

Tinha gosto de liberdade nas frutas
Sempre havia o que fazer e aonde ir
Sempre há
Mas quero dormir.

Meus portos seguros
Não estão no mar
Mas nele vejo a razão da partida
O mar engole tudo,
O mar
Engole desgosto
Só não engole a verdade

Perpassei-me naquele portão
Do qual ainda tenho a chave
Mas velhas chaves não abrem
As portas que agora se erguem
Os mesmos caminhos prosseguem
Nas direções menos prováveis

Só aquele velho lote vago
Continua o mesmo
Ou nem ele

Hoje como vejo...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Incerteza breve

Percorreste com a língua
Todos os meus recantos
Mas agora
Não é hora

Fugiste, ou te expulsei
Não queria
Mas nunca saberei

No alto da noite ainda escuto
O ressoar do seu sono
Que acordada acompanhei
Esperando que partiria
Antes que eu pudesse sonhar

Ou enlouqueceria



Poema Gigante (sobre o conflito que habita em mim e me move pela eternidade)


Te quero com tuas abstrações
Eu quero teus muros
Das lamentações
Clichês, vaidades,
Criatividades

Eu tiro de letra
As ingênuas mentiras
Meninas, meninos,
Benditas orgias

Passeio pelo teu urbanismo
Cínico
O clínico discurso do teu lábio
Superior
Aquelas cadeiras frias
Tão cheias mas tão vazias

Eu sento nas cadeiras
Eu cumpro os prazos
Eu sei eu sei eu sei
O que esperam de mim...

Sempre há de chegar
Uma ou outra vitalidade
Até o músico moribundo
Do outro lado do disco
Ainda canta uma canção

Alguma coisa mudou
Mas não posso envelhecer
Não quero não posso
Agora, 

Eu não preciso de ninguém
Ninguém precisa de mim
No entanto é impossível
Ser feliz sozinho

Quero participar
Não posso fugir
Quero sair do nada
Para lugar algum, todos os dias

E dedico a você...

 Minha última gargalhada

Sabe, quero gozar
Da tua infertilidade

E estas raras vidas sinceras que sempre brotam
De dentro da tua aridez

Ainda me fecundam
Sobrevivo desse combustível

Das nomenclaturas te dou
Meu indizível

Posso analisar o discurso
Mas prefiro analisar meus atos
Prefiro escancarar os fatos
Sem esquecer o valor do silêncio

Vamos dançar salsa
E vamos crescer!

Eu já sei como escrever
Não quero gavetas, quero chaves
Não quero cadeiras, quero asas

Quero ver a grama do vizinho
Só não quero viver de comê-la
Nem ruminá-la
Pelos livros afora

Quero pensar com o coração
Por favor entenda,
Eu cumpro a agenda

Saber dizer sim
É saber dizer não

Mas não se iluda
Sinto a minha essência

Sou o galo
Não o papagaio

Sente-se ao meu lado,
Quando menos esperar
Estaremos acordados

Eu amo certas coisas banais
E pode haver na delicadeza
Uma certa rebeldia

Acredite,
Há várias formas de contrafluxo
Conheça as vertentes

Cuidado!

O que for familiar pode amanhecer suspeito
E assim por diante

Neste poema gigante
Digo, que o pior
[e o melhor]
Ainda está por vir
E agradeço ao leitor

Que chegou até aqui.


Eu tenho um sonho

Meu sonho é poder ter
Cada vez menos coisas
Palpáveis

E ao trilhar esse caminho agradecer
Por ter a oportunidade de escolher
Não tê-las.

No que consiste a mesquinha estabilidade
Que insistimos em perseguir, e a que nos viciamos

A chamar de felicidade...?