terça-feira, 7 de maio de 2013

Ruas da memória


Andando por aquelas ruas
Catei fragmentos de mim

E deixei outros mais
Por irromper dentro dos dias

Vivo compactando histórias,
Racionalizando memórias
Alheias
Me alimentando de imaginações

Uma irônica via institucional
De evocar ancestralidades...

Mas percebi que meu desespero
Por não perder cada existência
Esvai-se pelas frestas efêmeras
da percepção

E que cada imagem fluida de minha experiência
Derrama-se pelo meu espírito pungente,
Único receptor
Inalcançável moradia

Tentamos apenas captar o fenômeno,
Reconhecê-lo,
Revelá-lo
Por meios opacos
Sem chegar no entanto
A seu receptáculo

Que é sensível, perene
Como o eco de uma canção amada
Mas não se traduz nem pelas melhores palavras
Embora mesmo assim não cessaremos

De tentar inventá-las...

E por essa limitada combinação
De regras semânticas,
Nos ocupamos de criar novos mundos, fecundados
Por aqueles derramados naquelas mesmas ruas
Ou em outras pelas quais

Nunca passarei


Chuva bem vinda


Onde estarão
Tuas mãos
Que poderiam
Molhadas
Estar instaladas
Em minha fonte

Nesta trégua de verão
Onde sou feliz
Onde estou em mim

Nunca digo não

Nada falta

Em tuas mãos
Tudo me resta

Mas demoras a chegar
E eu não te anseio

Já perdi o tempo
E o mundo a mim se rendeu

Eu não espero
Tu não esperas
Pois nem me conheceu...

Mesmo assim poderias vir
E sentir:
Jamais se arrependeria

Se dissesse sim
Ao destino
Ele se encarregaria
E você logo veria que não há nada de mau

Em sentir uma pele assim
Que de tão leve
De tão jovem
Flutua no chão
Aceitando essas gotas

No mais, o que direi

Continuem aí
Em seus guarda-chuvas
Esgueirando-se nas janelas
Esbarrando sorrateiros pelas bordas da paixão

Não posso garantir
A ausência do perigo,
[mas]
Posso oferecer a certeza de um abrigo
Por tempo
Indefinido

Qual é o desespero
Não há nenhum segredo!
Sei que está acostumado
Com todo esse desperdício,

Mas os anos se passam, e eu poderia
Ser uma daquelas a ficar
Na tua história,
A ficar na tua memória
Como algo muito bem vivido,
Ou será que é tão sensível
Que não pode mais ser ferido?

Meu bem, cresça
Morrer faz parte do jogo
[re] Nascer é inevitável

No entanto, lamento
Meu tempo acabou
Preciso pegar aquele ônibus
Antes que o dia anoiteça,

Se não quer merecer,
Não mereça


Vou dorar meu corpo ao sol...

Pelas ruas

Meu corpo atravessa minha cabeça
E a avenida, andando a esmo
Mas revestindo uma alma
Por incrível que pareça

Os rostos viram reviram minha indiferença
Minha carne sólida, aparentemente sóbria
Soterrada pela solidão

Mais uma dura expressão espalhada pelas ruas
Temos todos orgulho em nos fechar ao mundo
Em alimentar nossas frustações

Atravessando a avenida sigo os sinais
Sigo os iguais
Me diluindo na multidão
Sou nada menos
E nada mais