quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Revelação

Daonde parto agora não há mais retorno
Nem ponto de chegada
Sou essa chama seca e lúcida
Que na madrugada tua chuva refresca
Evitando a implosão
Sinto claramente, e creio
Mas sou quase só nisso tudo

Como achei minhas próprias pegadas
Apaguei-as e as refiz
Até de fato serem minhas
Serem claras
Confessei-me:
Insubordinada

Se perdermos a indisciplina
Se perdermos a impaciência
Estaremos perdidos
O contrário também pode ser dito
Mas nunca por mim

Os grupos me repelem assim que me atraem
Pois o cheiro do vento me basta

Estou tão livre
Das más banalidades
Que me sufoca olhar ao redor -
Então saio dançando em cacos de vida
E me firo,
Quando vejo que há revolta bloqueada
Ou pior que não há nada só desespero
De voltar pra casa,
Ou que pessoas sinceras tomaram caminhos previsíveis
E mais uma vez segui só

Mais uma vez disse não
A virar moldura de retrato,
A criar mofo no telhado da ilusão
Ou ir alimentando dia a dia os cupins que vão corroer meu sonho
Impedindo - me dos banhos de lua na banheira infinita e refrescante do teu gozo
Ou naquelas águas calmas do mar... 
Ou só poder gritar com os olhos pela beleza de um céu comum

Não aceito que qualquer coisa
Seja dita feia ou bonita
Sem antes experimentá-la
Não como um cão afoito, um inexperiente
Mas com toda a serenidade que me é peculiar

Adentro, e mesmo quando me identifico
- quando repouso -
Quero fugir!

Só teu abrigo extraordinário cabe em meu contorno
E isso enquanto for possível
Improvisar

 

sábado, 23 de novembro de 2013

Intercessões



Sou da rua, sim
Odeio receptáculos
Lotados ou vazios.
Eu gosto do espaço
Preenchido pela dança
Pelo som, pelo amor
Ou pela fúria
Aquela esquina feia, maltratada
Com gente desocupada, é naquela
Ou noutra qualquer
Simplesmente porque é rua,
Ou seja é trânsito,  movimento
Sem coordenadas
Posso desistir, mudar de ideia
Posso até cantar sem ser notada
Alguém chegar mais sem ser convidado
 (mas ser notado)
Basta apenas abrir a porta
Para ter qualquer coisa
Aos teus pés

Se é fora é desapego,
Anseio sempre
Vou construindo-me
Nos novos mapas internos da cidade,
Eterna, sem- fim
Mísera, inacabada
Como eu.
Quando sinto aquela neblina fria adentrando meu peito
Atravesso bairros,
Intercepto realidades
Toda a decadência ou o asseio dos cotidianos
Me interpela
Me interessa
Até mesmo aquele trajeto tão banal que fiz e refiz inúmeras vezes
Não tomo com desprezo

Quão longas são as estradas que me esperam?
Só sei que serão largas.

São tantas e crescendo sangue de meu sangue,
Com dor,  violência e esperança
Multiplicam-se sem cessar com seus transeuntes
Transbordando possibilidades
E alimentando trajetórias esquecidas, insistentes
Quase repetitivas.

Me embriago desses traços disformes
Que abrem crateras em meu peito
Pelos ritmos próprios de cada espaço
Reconheço-me,   
Ao desejo
A imortalidade sempre oculta
E a efemeridade a que todos nós temos direito...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Obscuridades

Estive empunhando sem paz a bandeira da guerra
Sou confronto, sou grito, mas
Hoje nem fui
Poetisa,
Fui vazio-completo de emoção passageira
Oca como o acaso
Como o surdo cego mudo que nunca nasceu

Completamente só e especialmente
Íntegra mas enlouquecida,
Ultrapassando senhas, filas,
Pelo anonimato
Atravessei paredes e pendências,
Para só no fim sentir o trânsito daquelas ruas antigas.

Ruas podres
De tantos porres, assassinos,
Pequenos ladrõezinhos pobre-coitados,
De energia e juventude
Euforia generalizada
Encruzilhadas com trabalhos
Bem e mal sucedidos de toda sorte

Para só no fim voltar a sentir as contradições,
Rindo dos homens incomodados
Com minha solidão contente...
É apenas medo o que os mantém
Na linha da conformidade?
Ou é a conformidade...

Diga sim!
Para dizer não,
Diga não para que respire
A imaginação e a liberdade
Por que não desafiar e ser desafiado?
Cruzei o mar para saber mas já sei
Que nada foi
Certo ou errado

Desejo sinceramente
Que todos os eletrodomésticos, todos os sistemas virtuais
Todos os supermercados
As agências bancárias e seus casais entediantes planejando seu triste futuro
Deixem esse planeta extraordinário para quem o merece.

Não quero afundar-me no veneno nem na arrogância
Quero apenas o teu abraço acendendo a certeza de que tudo
Pode ser qualquer coisa
De outra forma,
E estando inevitavelmente
Sujeito ao fim,
Passará.

Não eu, nem ti ou o abraço
Mas só esse agora fortuito,
Quase tudo vai ficando pra trás
O que resta ainda e persiste é porque transbordou o ontem
E milagrosamente salvou-se do tempo.

Este feito por si só, de transceder o espaço-tempo
Diluindo os paralelepípedos invisíveis da vida
Merece minha gratidão.
Tomei tantas formas e tua amizade conformou - se a todas elas
Aprendendo com os que parecem desprezíveis,
Desprezando os que parecem importantes
Não desistimos!

Comeremos as sobremesas antes do almoço
Sentindo os pingos da chuva e as faíscas do fogo
Para gritar pelo fim, pelo começo
Pela verdade inacabada
Pela vontade de criar
Um caos mais ordenado,

Onde o espírito dos homens não seja mais ignorado
Nem desperdiçado

Com estúpidas falácias tecnocratas.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Canto Contemporâneo

As flores e os pássaros abarcam o céu
Junto as balas  
As injúrias
As injustiças
Percorrem - me
Esta noite meia-lua
Está cheia pra ti
E estou
Desde sempre.

Desde sempre amo só de imaginar
Tua vastidão de mãe,
Teu ventre eternamente fecundo,
Tua desgraça infinita
Mas não infindável
Desgraça,
Os grãos nascem por todo lado
Mas não vão ás bocas,
Tudo se vende até o canto pálido
Do amanhecer,
Mas não Eu.

Tudo se rouba, tudo se saqueia,
Tudo é vendido por sorrisos sarcásticos
Nada mais tem sentido ou valor diante dos papéis

Aonde estarão os bichos do mato dessa terra,
Daonde pôde brotar tanto ritmo
Que sai do coco de água milagrosa,
Do bambu, da palma
O rio ainda desce maltratado,
Mas melhor que muita gente.

Amo só de pensar em suas grutas milenares aonde me escondi da dor,
Aonde fiz amor com mais de mil pessoas
E acordei amando novamente após dormir três anos,
Em todos os mares vibrantes aonde se pesca
Aonde se mata
A fome de paz e todas as outras.

Sonho antes de partir deitar-me olhando um céu repleto de estrelas no sertão
Ao som sincronizado de insetos camuflados,
Pisar outras areias fofas sentindo as carícias frias da água doce ou salgada
Ou vendo a terra seca e esturricada cheia de cactos,
Ainda gargalhar ao ter dois fartos goles d´água.

Por enquanto me perco nesse labirinto humano de todos os estilos,
Origens
Mas ao fim e ao cabo muito parecidos,
Todos embebidos na grande rede
Muitos totalmente automatizados, sempre impacientes ou irônicos
Outros tantos soltando pipas gigantes a quem quiser segurar
Alguns dispostos a viver, outros, a provar a alguém que estiveram vivos...

Não sinto mais anseio do novo pois é parte de mim em tal forma a liberdade,
Que muito já compreendo do que passou, e do que virá nem desconfio:
O que é perfeito.

Assumir-se só é grande, é imenso e ao mesmo tempo leve
O verdadeiro vazio é leve
Infinito em possibilidades
Só quem pesa esse vazio é o tempo,
Pois este pesa qualquer coisa que insiste
Tudo se [me] cansa
Tudo se entedia, a inércia, a aventura, a loucura e a prudência,
Tudo se curva diante desse rei soberbo.

Quanto a essa paixão que subsiste, não há saudade,
Pois já é parte de mim, é decisão feita, é coisa tão pura
Que antes de ser já aconteceu

[mas qualquer manhã arrefeceu]

Quando vier, aquela explosão, quero que irradie vida e desapego
Ou apego verdadeiro sem angústia
Espero responder bem a essa questão,
Espero testar minha evolução
De toda e qualquer mesquinhez do passado.

Posso me dar essa chance?
Posso derramar ainda nesta terra cansada mais alguma dose
De amor?
Terei de fazê-lo por alguns séculos
Soltem bombas ou não, queiram ou não as pessoas permanecerem
Em sua passividade e em seu medo
De transgredir...

Se elas ainda procurarem sempre as salas de suas casas
Para se abrigarem do mundo hostil
Se ainda acreditarem que é possível a estabilidade,
Que toda cegueira vale essa busca - ou que é mais fácil -
Não desistirei de dizer a elas,
que também amo minha rede e quero desfrutá-la muitas noites,
Que também quero a pequena paz de pertencer a algo sereno e seguro,

Mas apenas por dignidade
[e quero dizer que não por heroísmo ou qualquer invenção parecida]

Eu escolho lutar.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Percurso iminente (ou travessia perene II)

É sempre que me fortaleço,
Que o vento traz em seu ventre
A chama de um tropeço -
Quando sou rocha sempre me perpassa
O fio de lava da incerteza
De que o sentimento íntimo
Sufoca-me:
Paixão.

Cavando o túnel seco da paz,
Em essência
Retorno ao segredo
De que mais do que pra mim
Estou para o mundo e lhe sirvo
Café robusto de coragem
Ao abrir dos olhos
Mesmo sem saber ao certo
Se há correspondência.

Posso saber que dou paixão a vida,
E que ela sem saída
É combustível de meu caminho
A violência me fortalece,
A injustiça me faz mais sã
A tempestade é poça coberta de aurora ensolarada
Que não demora é revelada

O único mistério indissolúvel,
O único percurso no qual sou cega
E despreparada,
É o que leva meu sentimento ao teu
 Ritmo,
Sonho e ação.

Nesta tela cujas cores são palavras
Ainda que limitadas,
Mantenho viva
Pelo apelo intenso, silencioso
Ao universo
A resposta de minha interrogação
Pequena e mesquinha,
Mas legítima

Enquanto não me aparece
Ou se nunca acontecer,
Já tenho razão suficiente
Para minha existência, perdoa-me dizer
Pois esse poema não é de amor
Só a você -
Pelo contrário, está entrelaçado
Tenho em mim a sede,
No mundo a fonte
E quero em ti a rede.

Aquela velha conversa
Que já inchou poemas passados
E lamentos de ilusão
É simples mentira reproduzida
Que em mim arrancariam risadas
Bem humoradas, 
No bar da esquina
De tua casa

Isso se quisesses ouvir
Minha declaração pós-moderna de amor
Que não é frágil nem efêmera, mas simplesmente enxerga
O devir
Percurso iminente
Que inclusive felizmente

Me levou até a ti.





sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Travessia perene

Escrevo
Porque o que me atravessa
Não cabe só
Dentro de mim.

Escrevo porque tudo
Me atravessa,
E para que cá dentro não apodreça
A experiência ou a beleza
Não me faço clara
Mas me faço fim.

E sinto porque a indiferença,
Com seu cheiro de plástico  queimado
se mistura
Com o cheiro do tráfego
Quando o Eu sempre me perpassa
Na visão turva

E para que não me exploda
A estrela
Sou silêncio
                     e  devaneio
Sou olhar 
Abraço-desespero

Tudo aqui é estopim carbônico
Mas há sonho.

O sonho brota de dentro pra fora,
Ou de fora pra dentro,
Mas brota tecido
E sempre sedento
De desobstrução

Intercessão permanente -
O poema e sua gente
O corpo, a alma
E o chão

Permuta interminável
Entre o Eu que me rodeia
Nas superfícies do mundo
E aquele que me anteveio,
Oculto e resistente.

Não sei fazer-me reconhecer pela força,
Pois reconheço-te por nada
Ou por tudo que nem sabes

Das mínimas memórias 
E dos grandes esquecimentos
É feito e refeito
O caminho do poema.



sábado, 31 de agosto de 2013

Paisagem desconhecida

Dei a volta ao sol duas vezes
Para curar-me do mundo
E icebergs e vulcões
Criaram – se sem remédio
Na vastidão deste rio

Com Pablo embaixo do braço,
João cravado no peito
Perambulei a despeito
De todo calor e frio

Sim! Já me expus o suficiente
Mas apenas transbordei
Na noite da lua cheia
Pois vim do mar, da Aurora
Dos peixes frescos de Barcelona
Pescados na outrora viva
Baía de Guanabara

Nadei mais de mil braçadas
Nos braços dos velhos pescadores
Nunca enjôo daquele gosto
do sal
E talvez me acostumei a buscar
Esse estranho porto invisível

Nos montes nas cachoeiras

Um eco, cada vez mais longe
Sem bússolas eu intuo
Que até a pressa e o tempo
Cessaram de funcionar
Que agora está suspenso
Por isso não corro nem penso
Se um dia hei de chegar...

Nem calma nem desespero
Estou na fronteira de tudo
Num certo estado indizível
Onde quase tudo é risível
Paisagem desconhecida

[Os olhos, desidradatados...]

Meu barco segue sereno
Ora grande ora pequeno
Mas estanque,

Só teu abraço
Alma cega e sem laço -
Como poderia pensar
Que tu poderia enxergar?

Apenas agradeço
A João, Pablo, Hilda

Por terem transformado esta efêmera estada
Num sonho denso
E possível partida...




Degelo

Desejo o frescor da queda rara e milagrosa
Da cachoeira intocada sob finas frestas 
de um sol de amanhã.
O que tenho são os gritos da cidade
Com suas belezas solitárias, suas infinitas veias de destino
As quais cada vez mais me entrelaço
A despeito do cansaço, do reclame dos ossos
E da mente que esta sempre acesa
Sempre na espreita, que não mais medita
Que tudo espera
E nada aceita.

Tudo é parede e concreto
E pessoas a me interromper
a me atropelar
Nunca há silencio nem solidão
mas sim melancolia
E euforia sempre
Mas nunca paixão.
São tantas palavras
A habitar a mente
E as únicas que me sustentam
São as que jorram nos papeis
De poetas mortos

Parece-me que todos os poetas são mortos ou falsos

Ou estão a muitos quilômetros de distância.

Agora parece-me
Que,
Qualquer peito macio e aberto
Pode estar na esquina desse bairro
Mas nunca me abrigará.

Os verdadeiros aventureiros,
As almas originais
Com as quais devo juntar-me
Estão olhando desconfiados
Para o meu futuro sucesso 
fracassado

Em meio as verborragias
Aos oportunismos
Sobreviverei?
Sim, mas
Jamais serei criança
Jamais serei novamente
Alguém que crê cegamente!


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Agosto futuro

Na lua cheia de agosto as utopias se enchem
Como sempre estiveram cheias
Nos corações lutadores
Nas energias dos jovens
Espíritos e corpos

Agora florescem as raízes em mim
De muito antigas sementes,
Muito antigas nascentes
E tudo confronta e converge:
Minha falta de fome e cansaço
Pois,
As ruas saciam meu passo
Em direção ao teu peito
Que nunca senti.

Grande utopia
Sentir teu peito um só dia
E a alvorada da vida
Onde nunca há tempo
De ver-te, mas te sinto
E talvez nem deveria...

Não sei se a noite, ou aquele semblante
Da bela moça guerreira
Ou o anseio de tudo,
Ou aquela pequena infértil certeza
De que além de teu sorriso
Muito pouco haverá de sincero e preciso
Para se apreciar tão cedo...

Haverá de ser lindo já que,
Estamos conseguindo
Aquilo que nem sabemos
Mensurar

Haverá de ser feio,
Porque toda condição
Gera contradição
Que foge ao controle:
mas estou disposta e firme

Ainda assim  é tão pesado
Até
para a mulher que carrega os séculos
Quanto mais para a poetisa que os descarrega
nas palavras
Pois ela não pode, não consegue respirar
Sem a trivialidade da existência
Sem aquele tempo que se desperdiça
Por apenas se espreguiçar...

Mas cedo ou tarde ela volta
Pelo chamado da lua, pelo sangue
Da luta,
Pelo inconformismo
E
Diante de tudo isso
É sempre melhor adiar o risco
De em algum peito
Se acomodar

Nem todo amor domestica,
Mas que nada machuca mais
Do que desacreditar,
E se creio
Numa aurora desse mundo

Estarei em ti no segundo
Em que a semente germinar.


Eu derramado

Cada segundo de mim
Ou cada segundo
De tudo,
Apaga
Tantos dias e dias
Idas e retornos
No chão macio
Do que outrora foi minha terra

Fazia a cama toda manhã com energia
E deitava aplacando mágoas
Que com a mesma força enraizavam-se
A qualquer terreno fértil
Como eram grossas as raízes
Que até o ar alimentava!

Seu Euclides da casa de rações
Continua sentado em sua fachada
Esperando algo do tempo,
Enquanto os rapazes
Nas ruas de terra bem perto
Se matam
Ou são mortos por alguém de nome desconhecido:
O “Estado”.

Pra lá e pra cá os canários
De seu Euclides cantavam
Espantando a insegurança
Aonde vivemos mastigamos cada pedaço
E seja como for é sempre difícil
Digerir tudo

Ao partir guardei
A imagem daquela casa das flores de maracujá
Que eu sei, sempre estará lá a minha espera
Mas quando olho pra trás
É só um Eu derramado
e saciado
Não é nem saudade,
É apenas cheiro bom

De nunca mais.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O poeta em seu dia

Ao dia nacional da poesia
Devo dizer
Que deveria ser
Dia nacional do poeta,
Que espalha seus poemas por aí
Todo dia...

Sob a inspiração das esquinas
Sem patrocínios ou propinas,
Vivemos
Carregando o que nos liberta
Cantando mares e odores
Provando na pele a interrogação
Dos rostos inconformados

Não parecemos, mas somos tomados
Por uma cólera,
Ou um torpor qualquer
Naquilo que é mínimo
E só há uma coisa a fazer,
Só há a poesia

Não é um manifesto, é mais do que isso
Somos nós como verdadeiramente somos
Ou melhor, somos nós apenas
Como nem sabemos
Verdadeiramente:
Somos no poema
Uma única voz,
Que se condensa,
Recrudesce,
Um dia irrompendo


Sem retorno.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Olhar mutante

Toda hora chega
Todo dia
Meu

Toda hora inteira,
Aberta e bem serena
Mas nunca é tempo
E nunca mais foi simples
Impulso verdadeiro,
Foi tanto crescimento
Em tanto sangue pelo chão
Tanta princesa derramada

E depois
Todo o resto apodrecendo
Lento
Arrastando-se pelo peito adentro

Recusando-se a me devolver

Mais de mil faces me encaravam
No espelho das ruas cada manhã
Tive de ver e ouvir
Mais de um milhão de vezes
Que tudo é muito mais
Muito mais que absurdo

E ainda faço e refaço o sentido
De muita coisa a todo instante
Ainda piso cuidadosamente
Não sou mais cordeiro
Nem serei leão

Apenas desconfio
Afio minhas espadas
As flores pereceram
Só a poesia persiste

Respiro à minha maneira
Insisto em seguir sem consolos,
Sem muletas
E sempre à beira da emoção

Sem escombros pra me recostar
Sendo que até a montanha recosta
No mar
E o dia e a noite naquela

Por vezes recosto-me na lua
Entrego-me ao banho quente
De algum abraço fugaz
E sussurro apenas verdades
Que caem no vácuo constante

Dentro desse olhar mutante
Existe uma essência bem fixa
Como quando o mundo é tão estranho
Quanto pode ser claro,
Quando o preto dilui-se no branco
Revelando-se o mesmo

Estado-imensidão

Não quero testemunhas de fé
Ou de existência
Quero sentidos
Mais expansivos  
Sempre bem vividos,
Limpos
E no frio

Ser meu próprio fogo.

Como nisso tudo não perder-te
Ou como encaixar-te verdadeiramente,

Eis a razão

De todo (re) encontro... 


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Fôlego

Uma estrela explodiu hoje
Não pude contê-la

Varreu o universo
Quando ontem afirmava
Que tudo estava em paz.

Julguei estar vazio, em movimento contínuo
Leve solitário e silencioso
O vácuo celeste de meu peito
Pensei poder prever até a mínima gota
Debruçando-se na fresta da manhã

Ontem era fresco receptáculo
Com gosto livre de menta
Hoje é inflamável
Por ter engolido o sol

Se antes já estava vivo, agora
É latente,
treme
Expandindo-se indefinidamente

Como se a pele do cosmo tivesse de abrir-se
E evaporar
Para revestir o todo
Pela eternidade

Perdeu-se o senso de realidade
Quão vulgar e pequeno ele se torna
E de qualquer forma inútil

Se o delírio pronunciou-se
Quem falará mais alto?
Quem estancará o som
Da tua voz em meu ouvido?

Nascemos para o frêmito
Nada que seja vida
Pode se acomodar
Aceito a transitoriedade permanente!
E como partícula infame
Devo tremer no espaço
Revivendo a todo instante
O repouso e o desespero

Em teu olhar caramelado...


domingo, 14 de julho de 2013

Por amor à urbe

Estreitas alamedas
Becos maltratados
Homens esquecidos
[de si]

Transito incólume pelos lugares sujos,
e evito
A falsidade da beleza
Do que é domesticado

O que é muito limpo me salta às narinas
E sei que há algo de errado,
Há algo de irreal
Nessas esquinas

Algo de ilusório eu diria
Muito mais que teatral
Nas boutiques
Das ruas mais bonitas

E as meninas que nelas transitam
Achando seu dia tão banal
Tampouco me excitam

Mas sem distinção me desloco
E vejo o que quer que seja
Aonde ninguém veria

Me meto nos becos, nas multidões
Nos sons insurdecedores da cidade
Dos quais me alimento
De indignação, de amor,
De raiva e compaixão

E me sinto um robô mais humano

Embora sinta que houve algum engano
E que em enganos nos multiplicamos
Aqui me sinto viva
Seguindo minha odisséia urbana
À procura do lugar que perdi
[ou que jamais tive]


Assim que nasci.


Agridoce

Enquanto as letras vagam por este
Fecundo branco
Fundo,
Não mais as procuro

Este gesto puro me completa,
Ausente a inspiração
Mas não o sentimento

Olhos secos
Olhar tenro
É incrível o que brota
De contraditório da alma,
Incrível embrutecer-se
Entregando-se a emoção

Quero satisfazer-me
Com aquilo que tenho em mãos
Estar verdadeiramente
[no] momento

Sem procurar retê-lo

O que é precioso não me escapa à memória
Mas a efemeridade facilita a superação
De não poder partilhá-lo, seja através do sonho
Ou pela repetição

Saboreio o conforto de não construir laços
O alívio de não trazer esperas
 A leveza da espontaneidade

Aceito, degusto, despeço-me
E sigo mais forte
Sigo agridoce
Sigo perene

Porém, inflamada
Já não sei como ser amada
Mas sei

Flutuar

No movimento da tarde urbana
Submersa em minha paz e comoção
Entre as multidões impassíveis


Repouso acima do chão


quarta-feira, 26 de junho de 2013

O espírito do tempo

Há tempo para a poesia?
- Pensei
Se a poesia se retira,
Que farei?

Posso esquecer o pragmatismo no poema?
Há o pássaro entoando seu canto contínuo
Quando a noite cobre meu corpo
Ainda em ebulição

Além disso há toda uma estratégia
E a palavra mais uma vez
Molda a forma da vida humana
O discurso

O inconformismo é criança
Nascida e ressuscitada
Seu desafio é [sempre] crescer
Mantendo o desejo
Rompendo a desilusão.

Estamos vivos!
Eis a última notícia que surge

O sangue ainda corre em nossas veias domesticadas!

Do grito
Ao projeto
Pois esse mundo
É feito de concreto
E os jornais não dirão a nós
Como refazê-lo

Qual seria a nova matéria-prima do mundo?

De que substância o tecido
Do mundo se costurará

Agora só vejo as grades que interceptam
O pôr do sol na mata restante
Filtrando meu corpo de seu contato
A janela encardida
E o espelho
Que escancara minha existência

Os objetos esperando por arrumação
Os livros esperando pela leitura
E o resto que nada espera
Se impõe por necessidade
Assim termina o meu dia na cidade
Onde quase sempre é verão

Onde os rios são de sangue
Ou de merda
Onde nunca a rua é quieta
Ou deserta
Nem há condução

E cada vez mais na madrugada me lanço ao sono
Como o resto da multidão
A estrela tímida se esconde
Atrás dos urubus
Vencendo a luz elétrica

O espírito do tempo me atormenta
Chronos me aprisionou nesse corpo
De menina
Antes de estar gestado
Sei que o poema estará atrasado
Mas
[como disse o querido Pablo]


Confesso que vivi.


Sobre esses e outros tempos


O homem e seu cão
Neste outono imaturo
Outono inseguro
Mente latejante
A espera
Do desespero breve
No desejo
Na escuta
Tensa e astuta

A dança está suspensa
O chorinho continua
Consolo
De fim de festa
Ou ainda, estou errada
Todo tempo é digno de euforia
Mas não generalizada

A mim chega como gozo
Mas falta algo que além desconfio
Só saberemos dentro de algumas décadas
Será profundo
Será perene
Ou apenas convulsão fugidia
Mas sim sempre há
Consequências a mais
Para aqueles que não dormem
E planejam tudo

Deste lado a poetisa
Nada
Mas muito bem intencionada
Nunca mais escreveu cartas.

Não é previlegiada
É vigiada como qualquer idiota
Que agarrado ao seu conforto nem desconfia
Estar naufragando em patéticas
Águas rasas

Sorrimos para nosso algoz,  o alimentamos
Mas o que há de extraordinário
É que o extraordinário
Sempre vem
E cruzará a esquina dos meus olhos
 Surpresos,
Não porque nasci ontem
Não,
Mas porque é contínuo o renascer

Em tudo, que é contínuo,
Quero incluir-me consciente
E quero devassar o invisível,
De todas as conspirações.

E as simplicidades
Quero continuar a senti-las
 A saboreá-las bem devagar
Apesar de tudo.

Ademais já sei
Como estar em paz,
 Em mim
Mas não com o mundo:
A ele despejo minha melhor energia
de inquietação,
Pois quando tudo é muito calmo
Desconfio, e
Quando treme
Também desconfio [e gosto] mais. 


segunda-feira, 10 de junho de 2013

O que se foi (Ferreira Gullar)


O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?


(Em alguma parte alguma, 2010)

Confronto

Abriguei-me da vida sob aquele teto
Abalado.
Cultivei-me
Confrontei-me
Aprendi a amar, e
Aprendi a ser só

[a maior vitória]

Tinha gosto de liberdade nas frutas
Sempre havia o que fazer e aonde ir
Sempre há
Mas quero dormir.

Meus portos seguros
Não estão no mar
Mas nele vejo a razão da partida
O mar engole tudo,
O mar
Engole desgosto
Só não engole a verdade

Perpassei-me naquele portão
Do qual ainda tenho a chave
Mas velhas chaves não abrem
As portas que agora se erguem
Os mesmos caminhos prosseguem
Nas direções menos prováveis

Só aquele velho lote vago
Continua o mesmo
Ou nem ele

Hoje como vejo...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Incerteza breve

Percorreste com a língua
Todos os meus recantos
Mas agora
Não é hora

Fugiste, ou te expulsei
Não queria
Mas nunca saberei

No alto da noite ainda escuto
O ressoar do seu sono
Que acordada acompanhei
Esperando que partiria
Antes que eu pudesse sonhar

Ou enlouqueceria



Poema Gigante (sobre o conflito que habita em mim e me move pela eternidade)


Te quero com tuas abstrações
Eu quero teus muros
Das lamentações
Clichês, vaidades,
Criatividades

Eu tiro de letra
As ingênuas mentiras
Meninas, meninos,
Benditas orgias

Passeio pelo teu urbanismo
Cínico
O clínico discurso do teu lábio
Superior
Aquelas cadeiras frias
Tão cheias mas tão vazias

Eu sento nas cadeiras
Eu cumpro os prazos
Eu sei eu sei eu sei
O que esperam de mim...

Sempre há de chegar
Uma ou outra vitalidade
Até o músico moribundo
Do outro lado do disco
Ainda canta uma canção

Alguma coisa mudou
Mas não posso envelhecer
Não quero não posso
Agora, 

Eu não preciso de ninguém
Ninguém precisa de mim
No entanto é impossível
Ser feliz sozinho

Quero participar
Não posso fugir
Quero sair do nada
Para lugar algum, todos os dias

E dedico a você...

 Minha última gargalhada

Sabe, quero gozar
Da tua infertilidade

E estas raras vidas sinceras que sempre brotam
De dentro da tua aridez

Ainda me fecundam
Sobrevivo desse combustível

Das nomenclaturas te dou
Meu indizível

Posso analisar o discurso
Mas prefiro analisar meus atos
Prefiro escancarar os fatos
Sem esquecer o valor do silêncio

Vamos dançar salsa
E vamos crescer!

Eu já sei como escrever
Não quero gavetas, quero chaves
Não quero cadeiras, quero asas

Quero ver a grama do vizinho
Só não quero viver de comê-la
Nem ruminá-la
Pelos livros afora

Quero pensar com o coração
Por favor entenda,
Eu cumpro a agenda

Saber dizer sim
É saber dizer não

Mas não se iluda
Sinto a minha essência

Sou o galo
Não o papagaio

Sente-se ao meu lado,
Quando menos esperar
Estaremos acordados

Eu amo certas coisas banais
E pode haver na delicadeza
Uma certa rebeldia

Acredite,
Há várias formas de contrafluxo
Conheça as vertentes

Cuidado!

O que for familiar pode amanhecer suspeito
E assim por diante

Neste poema gigante
Digo, que o pior
[e o melhor]
Ainda está por vir
E agradeço ao leitor

Que chegou até aqui.