sexta-feira, 31 de março de 2017

Central do Brasil

Vagão do mundo
o (im)possível se repete
a todo segundo,
nos braços do tempo
que engole o espaço
e até numa lágrima
coube
a quebra do silêncio
de um vazio forçado
que finge ignorar a vida
que dança nos trilhos
nas roupas do trabalho
no suor do cansaço
desabafo
nos olhos
saindo do buraco
irrompem os raios de luz
que toca os barracos
que revela as rochas
as vendas
as pipas
as bicicletas solidárias de fim de tarde
os cordões umbilicais distantes
sertões
brasis
as dicotomias
entrelinhas
as segregações
concretas
e fluidas
discretas
e discrepantes
negadas
as sutilezas secretas
de histórias
sem fim
jornadas
entrelaçadas
nos terminais
daonde iniciam-se
milhares
de destinos



quinta-feira, 23 de março de 2017

Urbanicidade

Tinha um corpo
Sub - corpo
Apagado
Mas que se arrasta na memória
daquele espaço
cheiro de sangue
som de grito
se estendendo
no olhar indignado
devastado
Que se reconstrói no tempo
Na necessidade
de seguir
de não sucumbir
Reafirmar
Afinal
Não há fuga possível
Dali pra cá
Ou de cá pra lá
Aqui ou noutro lugar
A guerra é onipresente
E nossa vida, trincheira
Muros
Pavores
Rumores
Abismos
Alteridades
A madrugada cala o dia
Mas o silêncio grita
Todos os sentidos da morte:
E há vida
Que reelaborada pela aurora
Extrapola
o medo, por ora
Nada abafa o canto
que recomeça brando
Até outro sol raiar



Hiper teoria


Nocaute
na vitalidade
Subjugando 
criatividade
Represas
Modelos
Postulados
senhas 
e formatos
Carregados 
de obediência
Falta de unicidade
Do maravilhar-se
Do entregar-se
Ao ser sensível
Verborragia 
Que inunda a alma
Rouba a magia
Disseca arco-íris
Ao ponto de fazer-nos cegos
Imersos no labirinto
do hiper texto
Doença que se pode felizmente curar
Deixando-se vibrar no corpo
A força das ondas do mar



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Entre escombros
impotentes
indigentes
soterrados
Do outro lado
aqueles espíritos podres
derramam sua crueldade
com a frieza
dos algozes
que são
Mas então
O menino Eduardo
nunca será vingado?
Nunca mais soltará sua pipa
O menino Eduardo
Nunca mais vai correr pelo beco
Com a bola na mão
Acender as velas
Continua sendo profissão
E sabe-se lá quando
Todo esse sangue
Vai estancar
Sabe-se lá
Só resta lutar
Vem correndo o sangue
incolor
invisível
sedento
A secar
Procurando o lugar
Pra virar seiva
O racismo nosso de cada dia nos dai hoje
Com ou sem
rede
(des) conectando os dados
O que transcende o fardo
O indivíduo
A intuição
Ou a razão
O satélite nem sempre nos reúne de fato
Só expande nossas misérias
grandes ou pequenas
E agora somos quadrúpedes com antenas
Quando poderíamos ter a verdade
Mas o que sempre teremos é a busca
Que desperta dentro
De cada nascimento
E nem todas as probabilidades
Dão conta
de tantas realidades
que vão e vem
no tecido do espaço-tempo
E o controle descontrolado se mantém
Até ser finalmente revelado
Além

quarta-feira, 12 de outubro de 2016


  A saga do rio           

Prossigo
no in-verso
Reverberando o grito
Estendendo a rede
e o ouvido
Repito
o mito
E enxergo
Cada vez mais alguém
Que quer o mesmo que eu
Que cresce
Que tem alcance
Que quer estancar o sangue
Ir além
Mas sabe que antes disso
porém
ele terá que jorrar
Pelo leito certo
E os peixes farão do seu rio morto
A nova promessa de vida
que vai saciar nossa sede
de liberdade 
e de justiça 


quinta-feira, 1 de setembro de 2016


Me inquieta ver o passado
Me inquieta acompanhar o presente
Me inquieta VIVER

Os muros sempre falam
as feridas e as fraturas
ex-postas
se entrepõe
à sobrevivência
diária
O ar é denso
de desilusão

Vi ter um vazio aí
E essa verdade
Vai encharcar o tempo
De saudade

Oh bruta flor
nem sabe o que quer
Algum dia
o jogo viraria
Não foi pra onde eu mirei

Mas continuo no campo de batalha
Estudando possibilidades




terça-feira, 9 de agosto de 2016


Fraturas


Lá fora os metais

Ser-vis

E os heróis de plástico

Essa falsidade

Que nos agride

Que cerra as gargantas

Sobressalta os olhares

Carregados de fantasmas

E este poema obstruído

Engasgado pela miséria

Jorrando como jorra o sangue

O medo e a coragem

Há de se explodir a vida

Como toda estrela que acorrentada

Carbura as próprias correntes

Quem nos jogou nesse cenário podre

Foi nossa própria mediocridade?

Quem tem medo do insconsciente

Que escancara

O oculto e o resistente?

Quem tem medo do tempo

Que se faz presente e eterno

Não sou a escrava das fibras óticas

E sim a chave dos olhares profundos

Pode ser na lama tóxica do rio desértico

Que outrora foi doce

Aqui morrerei...

Não me leve pra qualquer terra

Onde preto não fez raiz

Onde não tem pele vermelha

É mais impossível ser feliz

Não me adentra a beleza oca

Do espetáculo

Da mentira

Não me engana essa festa macabra

Que pisa nos nossos corpos

O sorriso maligno dos mafiosos

Nos encara e nos une

A desilusão da verdade

Nos encara e nos une

A solidão da margem

Mas sempre

E sempre

Renasceremos

Re-existiremos

Das fogueiras das verdades

As tochas se apagaram

Só pra indicar

Que nem de longe estamos vencidos

E nem de perto

Esqueceremos.